dia 12 - rebelde fatalista

a madrugada toda pela frente
e um silêncio mais denso que o habitual

não será fácil carregar esses pesos até que o dia nasça

por um lado
o tempo que se demora e se estende
por outro
a quietude compacta e repleta de solidão

sobra a certeza do inevitável
a bem ou mal
o nevoeiro acaba sempre por se dissipar
e o dia não tem como não nascer

ele sempre se assumiu como um rebelde fatalista
acreditava num destino traçado mas recusava conceder

chegava até a pensar que só era teimoso precisamente porque a vida lhe tinha imposto um fado
se assim não fosse
provavelmente estaria sentado num canto sem chatear ninguém

mas quando descobriu que dele não dependia o futuro
fez questão de mesmo assim o renegar

tinha um feitio desses
dos que eram mudos até à primeira provocação
a partir daí era uma besta sem açaime
e quem estivesse à frente era mordido até aos ossos

indomesticável

tinha-lhe dito uma vez um velho professor
ele recebeu a deixa como um elogio
embora a boca ensanguentada do velho quando a cuspiu levava o sabor de uma crítica

os dias que passou preso por desobediência e violência
foram dos mais gratificantes
sabia que pelo menos um pequeno transtorno no determinismo tinha conseguido criar
ou assim acreditava

mas eram noites como esta que o faziam duvidar por momentos
noites em que a madrugada rumina interminavelmente
noites em que está tão só que o tal destino traçado parece estar mais perto

agarrava-se a como podia a uma certeza que tinha cultivado por dentro
de que tal como as árvores
na hora final
morreria de pé


"Serraria no nevoeiro matinal" de Emil Jakob Schindler, 1886, Museu Belvedere, Viena, Áustria, abril de 2022

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