enquanto viajava por uma metáfora
foi passando por lugares nenhuns
utopias portanto
contornando-as em curvas e contracurvas até desaguar em silêncio
há sempre silêncio no fim de uma metáfora
um instante em que se olha para trás para ver o caminho que se fez
às vezes essa quietude dura uma vida
e só no fim o caminho faz finalmente sentido
o corpo doía-lhe e sentia um início de febre
não era comum sentir essas coisas
mas reconhecia-as rapidamente quando apareciam
eram sintomas cuja lembrança só voltava quando se revelavam
a memória calava-os o resto do tempo quando a saúde sorria
antecipava um sono errático
provavelmente a distorcer o passar da madrugada
como os livros ou os acordes definitivos de um piano clássico
mas a noite lá passou
e aquilo que passa
tanto bebe no que se esperava que fosse
como sente sede naquilo que nos surpreende
sobrevive num meio-termo difícil de explicar
ele já não sabia bem se tinha dado à costa de um novo dia
ou se ainda naufragava agarrado à jangada da metáfora inicial
o mundo nem sempre fala a língua que conhecemos
e mesmo quando eventualmente a fala
somos nós que não a entendemos
como se os sons se distorcessem pelo caminho
pela distância que existe inevitavelmente entre a realidade e nós
ele apercebia-se então que o concreto não passa de uma ilusão
que existem dimensões no palpável
que não está tudo no mesmo mar de infinito
ou que pelo menos não está tudo no mesmo plano
que cada gesto vibra num timbre diferente
e que cada assombro se amontoa e se imiscui como pode no tecido do espaço e do tempo
no fundo
quer a metáfora quer a febre
vão abrindo brechas nessas dimensões diferentes da realidade
e é assim que transbordam uma na outra
desaguando ora em versos ora em algo insólito
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