dia 141 - primeiro amor

ela abriu os olhos e ergueu o olhar para o céu
inclinava a cabeça até ao limite do equilíbrio
e quando acabava de suspirar dizia coisas como

a minha sombra veio à minha procura
mas eu já não estava lá
e sei que alguns poemas escaparam
ou pelo menos um verso ou dois
e que o encadeamento dessas palavras perdeu-se para sempre

era evidente um arrependimento
mas também uma triste resignação
e essa mistura acabava por ser desconfortável
até porque ele que a ouvia
que nada sabia de poesia nem de penumbras órfãs
ficava a meio caminho entre um gesto de afeto e um calar solidário

era sempre assim entre os dois
ele rendido àquele rosto iluminado e à curvas de um corpo que ondulava
ela longe metida nos próprios dramas que ora partilhava ora os arrancava à força para ela própria como uma criança demasiado mimada

iam dançando essa dança os dois
ele que sabia em demasia o que queria
ela sem saber sequer se queria o quer que fosse

viviam descompassados
como se lhes tivesse calhado ritmos cardíacos alternados
e entre o ir e vir de cada um
por vezes
ambos lá acabavam alinhados
para logo de seguida se descruzarem nessas ondas desencontradas

mas nesses breves instantes em que se entrelaçavam numa arritmia caótica
um e outro acabavam por ceder
fosse ele no que desejava
fosse ela na indefinição

porém rapidamente
o desarranjo voltava
e ela regressava ao refúgio emocional
e ele à sede secreta e insaciável

e queimavam ciúmes e amuos e pedidos de desculpa e amo-te's cada vez menos envergonhados
até ao dia que um deles
ela ou ele
ou ambos
se deram conta que afinal teriam outros incêndios para atear

que nenhum outro jamais seria como o deles
mas esse é o drama do pirómano
saber que nenhum fogo arde como o primeiro
mas ainda assim está condenado a deflagrar quantos puder


Lenções Maranhenses, Maranhão, Brasil, agosto de 2025




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