dia 144 - o remanescente

engoliu a própria língua

dedicou-se à pintura
e pintava o que podia
esperava pelas febres da inspiração
algumas trazidas pelo excesso de bebida
outras trazidas pelo excesso de mundo

lançava-se a cada tela com a ambição do impossível
mas acabava por ter de deixar de fora algumas loucuras
não cabiam todas num quadro nem em dois
e se calhar nem havia tinta que chegasse para o que lhe podia sair dos gestos

era isso
um exagero de gestos quando agarrava os pincéis
ou até mesmo com as mãos e os dedos
ambos crus e nus a galoparem pelas obras

o que lhe sobrava era sempre mais do que o que usava
e não encontrava solução para resolver esse imbróglio

tinham-lhe dito em pequeno
que um tio de um tio de um tio
lá atrás na árvore genealógica
sofrera do mesmo mas com palavras
que o que escrevia nunca chegava
que havia sempre uma palavra mais
que na queda da gravidade poética
os versos iam-se debruçando sempre mais
escavando sempre mais fundo

e sabia também de uma mulher que tinha tido mil filhos
que carregava gravidez atrás de gravidez
dando à luz a cada instante
como se a maternidade tivesse enlouquecido de repente

estas coisas levava-as para os quadros
povoavam-lhe os gestos e os traços de um canto ou outro
e inundavam os painéis
fossem pequenos fossem enormes
não interessava
porque no final o que ele sentia era um absurdo
por mais pequenos que fossem não mergulhavam suficientemente nos detalhes
e por muito grandes que fossem ficavam sempre aquém do bastante necessário para que a alma repousasse

vivia em permanente remanescente
como se a vida não coubesse
e o caudal da realidade não parasse nunca de transbordar

passaria o tempo todo a afogar-se
como a língua que tragou no início


Festival Imaginarius, Santa Maria da Feira, maio de 2026

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