enquanto falava
a sombra do corpo confirmava que existia
não havia dúvidas
ela projetava-se até onde o contorno o permitia
extinguindo-se quase de uma só vez num último suspiro de penumbra
antes mesmo de ser irremediavelmente deglutida pela luz
era isso
vivia até onde podia
não mais
os limites eram a prova do possível
para lá deles o mundo era uma coisa sem nome e um lugar sem mapa
deste lado
ia aproveitando cada nesga de realidade
ocupando todo e qualquer espaço que descobria
como se uma febre de parasita o tomasse de assalto
e fazia-o com o corpo e com a mente
esticava-se nessas duas dimensões até os ossos doerem ou a cabeça latejar
talvez se me expandir pelo que alcanço
consiga um dia passar a muralha do que é real
esgotar todos os lugares e recantos
e constatar que não há mais por onde ir
remoía estas coisas
imaginava transbordar para lá disto tudo
ponderava ser um excesso dele mesmo
e assim emboscar a condição finita com que havia sido condenado
um impasse então seria bem-vindo
encarar o possível num duelo de teimosia não o assustava
sabia do infinito de irredutibilidade que o habitava
sentia-se capaz de vencer
ou pelo menos de nunca se render
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