dia 146 - poema desmoronado de um triunvirato

reconheceu-o pelas cicatrizes
e enquanto o sondava e avaliava o que dizia
concluiu que as razões desse homem vinham provavelmente dos antepassados
heranças cujas origens eram dúbias
batizadas com sangue tanto culpado como inocente
mas o sangue nem o sabor nem a cor os distingue
e todo ele coalha a céu aberto até ser farelo acastanhado

ouvi-o discursar

por mais volta que possamos dar
reconhecer um erro é o que discerne os grandes dos pequenos

foram as palavras finais

ficou o silêncio até que os rumores treparam pela plateia
e o observador sentiu-os como arrepios numa noite fria
o que diziam ia ficando mais firme
como as teias que a aranha vai atando num canto abandonado de uma cave

estas coisas vão acontecendo
e os personagens tanto aparecem como desaparecem
resta ao poeta a espera

mas a espera é em si um infinito
cabe lá muito
o possível e até mesmo o impossível
o complexo e o absurdo
como secar flores mortas para que simulem um esboço de eternidade
ou espalhar sorrisos ou remar contra a corrente de um rio para saber o que há antes da nascente
até que pelo caminho encontra outras perguntas
talvez mais sedutoras ou mais cruéis
mas sobretudo inéditas

enfim
o observador seguiu o homem do discurso
ao longe ia vendo-o esgueirar-se pelas vielas cada vez mais desertas
tão desertas que perto do fim sobravam os dois e a distância

para o poeta
a distância era um bicho diferente da espera
na distância já não cabia tanta coisa
nela só podiam sobreviver duas escolhas
ou o segredo ou a revelação
o primeiro adiava a segunda era definitiva

o observador manteve-se furtivo
portanto o poeta escolhera adiar
nessa hesitação já o outro homem desaparecera

e curiosamente acabou por ser decisiva essa escolha do adiamento

o trio desfez-se
o homem o observador e o poeta
com eles o poema desmoronou

será que sobrou o leitor


Concerto de Michael Kiwanuka, Super Bock Arena, Pavilhão Rosa Mota, Palácio de Cristal, Porto, setembro de 2022

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