dia 145 - sonho

ofereceram-lhe um sonho
daqueles que acontecem quando se dorme

no entanto o sonho era demasiado pesado
impossível de carregar
não havia sono suficiente para o sustentar e levá-lo até ao despertar

de cada vez que adormecia caía num silêncio nadificado
e o momento em que fechava os olhos confundia-se com o instante em que os abria
como se o tempo no entretanto tivesse sido engolido de um trago
era como se nem sequer tivesse existido

não conseguia explicar
e ficava durante o dia a pensar para onde iriam essas horas
como se tinham desvivido e erradicado sem deixar vestígios que não o cabelo despenteado e a coberta fora do sítio

onde estaria esse entulho de madrugadas raptadas
onde se amontoavam após cada noite dessas
noites furtivas que num abrir e fechar de olhos se consumiam

mas depois
também se lembrava de que havia uma ou outra que nunca acabava
não eram muitas mas deixavam marcas
eram passadas em branco
a arrastarem-se tão lentamente que o olhar parecia perder-se numa apatia sem horizonte
ardiam em insónia num devaneio errante

e outras havia que soluçavam vários acordares
trinchando a noite por febres que ora se agarravam a um delírio
ora destilavam suores repentinos alagando cama lençóis e roupa

era um mundo com várias histórias
só não parecia haver era espaço para o tal sonho que lhe tinham dado
esse pedia o tamanho de um sono maior
talvez igual àquele que existe antes de nascermos ou o que nos espera depois de morrermos
pedia eternidade para que pudesse desenrolar-se até não ter mais nada para dar
pedia infinito para se desnovelar sobre o tecido do universo

quem sabe
um dia ou uma noite
esse sonho possa ser enfim dormido
e desaguar no acordar definitivo da alma


Cama desfeita, hotel em Paris, novembro de 2022

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