descer de mim
ir até à estacão
ou ao cais
ou à biblioteca
ou às profundezas da alma
e ir ao encontro
de todos os combóios
de todos os barcos
de todos os versos
de todos os gestos
descer de mim
ir até à estacão
ou ao cais
ou à biblioteca
ou às profundezas da alma
e ir ao encontro
de todos os combóios
de todos os barcos
de todos os versos
de todos os gestos
as árvores ao contrário
as raízes no cimo, magras e histéricas viradas ao céu, recortando os veios em contraste com o branco das nuvens pálidas
em silêncio petrificado, um esforço derradeiro de seiva, em vão por agora
talvez mais à frente na combustão da primavera recuperem e disfarcem em folhagem o esqueleto real que vão sendo
o que revelam para já é a contradição da própria existência
a batalha contra a força invisível da gravidade a cada ramo que se ergue um pouco mais e a luta assombrosa de cada raíz que rompe o atrito do subsolo, pela terra e pedras que as trava
as árvores hibernadas delas mesmas, quietas em silhueta, pilares de nada, monumentos do mais profundo desconhecimento
Viste-o de novo ontem. Passaram-se anos. Está com melhor aspeto. E, se aos teus olhos, permaneceria um Grande, mais ainda o é hoje pois viste-o a escrever.
Comprometido com as palavras. Talvez seja mais forte do que ele mas escrever é isso mesmo, abraçar a sina das palavras, ir mais além.
Morreremos todos e no infinito disto, seja no desfalecer do universo, seja no recomeço cíclico do cosmos, o silêncio, o profundo silêncio prevalecerá. A questão é que alguns, poucos, heróis, danados, condenados, no intervalo disso, abraçaram a poesia com a alma e o corpo e dedicaram-se à imortalidade.
Em vão, sim.
Mas não há nada de mais belo que a tentativa de alcançar o impossível.