deixemos correr
as folhas que secam agora
depois de terem passado um verão a engolir sol
vão-se desprendendo delas mesmas
num último grito de vida
aguardam a queda lenta nas brisas do outono
planando pelo infinito dos tons de ocre
nos desenhos de um voo aos esses
como um pêndulo em desvario
ora vão ora vêm
forçando ângulos como as espadas dos samurais no antanho a simular desmembramentos
até por fim a decapitação derradeira no chão silencioso
e é esperar que um passo distraído as calque
as estale no crepitar definitivo
uma poderá encostar-se num canto de jardim
quem sabe se um leitor em busca de um marcador a colha
para depois a depositar entre as páginas de um livro ilegível
no futuro
daqui a mil noites
após um mergulho suado sob uma lua exagerada
um corpo cheio de sede se precipite numa garrafa de rum
e a meio da madrugada e a meio da garrafa
numa mala perdida um livro de poesia se revele à mão
e aí
no meio de dois versos ou três
uma folha outonal esquecida desde então
furada pela fome de formigas e devorada em parte pelo tempo que passou
deixe entrever as letras que falem as verdades desejadas
e o ébrio
por entre um desmaio ou outro
declama uma outra poesia numa língua ainda por inventar
o outono sentencia as promessas
mas não deixa de o fazer com a cerimónia devida
ele respeita a cadência das esperas
e contempla a beleza da quietude
os ocasos demoram-se até desistirem
os anseios cumprem-se até desmoronarem sob o peso de tudo o que não acontece
outubro é o mês de todos os fins
o inverno só existe porque alguém acabou com o mundo antes
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