todos pararam de falar
era alto
e estava por trás de uns óculos de sol cujas lentes eram de um breu extremo
aos poucos cada um regressou às conversas e bebidas
enquanto ele se foi sentando num canto
a noite toda
os olhos ficaram escondidos
e em silêncio ia emborcando um copo de cada vez
parecia esperar alguém
mais tarde
viemos a saber que esperava por ele próprio
pelos vistos
uns dias antes
tinha acordado desencontrado de si mesmo
ao olhar-se ao espelho deixara de se reconhecer
mas compreendera de imediato que era algo momentâneo
que mais cedo ou mais tarde voltaria a ele
encarou esse hiato como uma simples suspensão da consciência
restava-lhe o corpo
manteria a carcaça até o hóspede regressar
por isso escolhera uns óculos opacos
para que ninguém se perdesse nesses poços sem fim que eram os olhos
vagueou pela cidade até ao café onde estávamos
e aí ficou a beber e à espera
se chegou a reencontrar-se nunca se soube
mas havia o rumor de que em momento algum duvidou
que enquanto esteve vazio manteve a calma de uma pedra
havia quem achasse que era tudo mentira
que usava essa história para esconder a loucura
que se enganava a ele mesmo só para poder simular um abandono
e assim evitar a todo o custo o confronto com os remorsos
desempossado de si
ia indo até o verbo se esgotar e o caminho esvair para lá do longe
não saberíamos se um dia o corpo voltaria a ser ocupado
ou se tudo fora uma quimera
há quem diga até
que nós
os que o vimos entrar e beber até ser dia
éramos fruto da sua imaginação
que um médico o diagnosticara horas antes
que sofria alucinações
não tínhamos como refutar
nenhum de nós tinha nome e nenhum de nós tinha memória
não havia por onde sustentar uma revolta
se calhar
nas contas finais disto tudo
pode ser que sejamos
nós e ele
um simples remendo poético numa madrugada mais

Sem comentários:
Enviar um comentário