dia 284 - desempossado

quando entrou
todos pararam de falar

era alto
e estava por trás de uns óculos de sol cujas lentes eram de um breu extremo

aos poucos cada um regressou às conversas e bebidas
enquanto ele se foi sentando num canto

a noite toda
os olhos ficaram escondidos
e em silêncio ia emborcando um copo de cada vez

parecia esperar alguém

mais tarde
viemos a saber que esperava por ele próprio

pelos vistos
uns dias antes
tinha acordado desencontrado de si mesmo

ao olhar-se ao espelho deixara de se reconhecer
mas compreendera de imediato que era algo momentâneo
que mais cedo ou mais tarde voltaria a ele

encarou esse hiato como uma simples suspensão da consciência
restava-lhe o corpo
manteria a carcaça até o hóspede regressar

por isso escolhera uns óculos opacos
para que ninguém se perdesse nesses poços sem fim que eram os olhos

vagueou pela cidade até ao café onde estávamos
e aí ficou a beber e à espera

se chegou a reencontrar-se nunca se soube
mas havia o rumor de que em momento algum duvidou
que enquanto esteve vazio manteve a calma de uma pedra

havia quem achasse que era tudo mentira
que usava essa história para esconder a loucura
que se enganava a ele mesmo só para poder simular um abandono
e assim evitar a todo o custo o confronto com os remorsos

desempossado de si
ia indo até o verbo se esgotar e o caminho esvair para lá do longe

não saberíamos se um dia o corpo voltaria a ser ocupado
ou se tudo fora uma quimera

há quem diga até
que nós
os que o vimos entrar e beber até ser dia
éramos fruto da sua imaginação
que um médico o diagnosticara horas antes
que sofria alucinações

não tínhamos como refutar
nenhum de nós tinha nome e nenhum de nós tinha memória
não havia por onde sustentar uma revolta

se calhar
nas contas finais disto tudo
pode ser que sejamos
nós e ele
um simples remendo poético numa madrugada mais


São Miguel, Açores, junho de 2017

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