como se as palavras chegassem só após serem ditas
e o que diziam era já antanho
o mundo tinha acontecido
e só depois é que revelava
ele tornava-se assim uma testemunha póstuma do universo
o tempo acabaria antes de ser medido por inteiro
esse lugar era de uma solidão extrema
como as grandes ruínas de eras tão antigas que o pó nem cor tinha
no fundo
vivia rodeado de fantasmas
de vestígios e de cicatrizes
os segredos codificados do passado
pareciam empilhar ainda mais demora
e o tempo tornava-se tão denso que implodia sob o próprio peso
ele era o arqueólogo da própria vida
o que sentia via e provava
chegava-lhe já tarde
e por onde se movia já tudo o resto tinha escapado
os outros iam já para lá de um horizonte
enquanto que ele estagnava num planície sem cheiro nem raízes
no entanto
provavelmente
outros haveria num adiamento ainda maior
quem sabe se para trás dele mesmo
os silêncios se alongavam ainda mais
e nessa mudez profunda
haveria quem o imaginasse menos sozinho
talvez andemos todos desfasados do presente
talvez ele nem exista
ou existindo acaba por ser inconcebível
o agora será uma ilusão
o instante será o milagre inalcançável dos deuses
ele perdia-se nestas coisas
e com certeza eram elas que o atracavam nesse lugar desalentado
talvez sonhasse
e no sono o labirinto era um infinito sem saída
e quanto mais buscasse o escape
mais enredado estaria
até que ao acordar
fosse ele também o ditado de uma vida obsoleta

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