dia 283 - postumamente

ultimamente tem havido um atraso
como se as palavras chegassem só após serem ditas

e o que diziam era já antanho

o mundo tinha acontecido
e só depois é que revelava

ele tornava-se assim uma testemunha póstuma do universo

o tempo acabaria antes de ser medido por inteiro

esse lugar era de uma solidão extrema
como as grandes ruínas de eras tão antigas que o pó nem cor tinha

no fundo
vivia rodeado de fantasmas
de vestígios e de cicatrizes

os segredos codificados do passado
pareciam empilhar ainda mais demora
e o tempo tornava-se tão denso que implodia sob o próprio peso

ele era o arqueólogo da própria vida
o que sentia via e provava
chegava-lhe já tarde
e por onde se movia já tudo o resto tinha escapado

os outros iam já para lá de um horizonte
enquanto que ele estagnava num planície sem cheiro nem raízes

no entanto
provavelmente
outros haveria num adiamento ainda maior

quem sabe se para trás dele mesmo
os silêncios se alongavam ainda mais
e nessa mudez profunda
haveria quem o imaginasse menos sozinho

talvez andemos todos desfasados do presente
talvez ele nem exista
ou existindo acaba por ser inconcebível

o agora será uma ilusão
o instante será o milagre inalcançável dos deuses

ele perdia-se nestas coisas
e com certeza eram elas que o atracavam nesse lugar desalentado

talvez sonhasse
e no sono o labirinto era um infinito sem saída

e quanto mais buscasse o escape
mais enredado estaria
até que ao acordar
fosse ele também o ditado de uma vida obsoleta


Foz do Douro, outubro de 2025

Sem comentários: