não era fruto de uma mágoa
mas de um vento de poeira repentino
seguiu o caminho clássico
do canto do olho até meio da face
e depois
sob a ilusão do próprio peso despenhou-se
desaparecendo para lá da sombra que cobria o chão
na verdade
o sentido da queda é um ponto de vista referencial
a lágrima caiu ao chão
tanto quanto o chão caiu à lágrima
no universo
qualquer medição tem de estar forçosamente atracada a uma referência
por isso
quem sabe
se visto de outro lugar
se não é o chão que vertiginosamente se precipita até à lágrima
seguindo-a até mesmo antes dela ter brotado
passando para lá da razão imediata de um incómodo nos olhos
e indo até ao brotar original de qualquer pranto
não era fruto de uma mágoa dizia eu no início
mas talvez fosse
provavelmente seria
nem que tivesse chegado com o atraso de um desgosto ou de um luto
um repentino revelar de saudade que nem sabíamos ter sentido
as emoções não têm prazo
elas fulminam
e basta um instante para que cintilem
seja uma areia a irritar uma pupila
seja um trago na garganta que nos engasga sem aviso
seja uma verdade atirada à cara
estas coisas não são para se saberem
são somente para acontecerem
e ao contar tudo isto
quando a noite já é profunda e o amanhã espreita
resta pouco que não seja esfregar os olhos
inspirar fundo e concluir
a escrita
parece-me
sobretudo a cada dia que passa nesta loucura em que mergulhei
que não é propriamente um caminho para se ter certezas
se são certezas que procuras
então não escrevas
ouço-me a dizer estas palavras
como que ditadas por um outro
pouco importa
a lágrima sumiu
falta saber se desterrada para lá dela mesma
ou se engolida pelo solo escuro do desconhecido
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