olhando-o nos olhos
o meu desejo
era termos ficado presos no que me lembro
naquele verão onde no fim de mais um dia
o meu e o teu corpo
repletos de sol e de sal
descansavam juntos
desencontrando-se somente no ir buscar uma bebida mais
e voltando a reencontrar-se com a outra sede por saciar
ele ficou em silêncio
nunca vira a mulher que lhe falava
teria de tomar uma decisão
ou desmascarar a situação
ou inventar um passado
ela esperava por uma reação
e nas esperas há tempo para acontecer tudo
e até ele desfazer a indecisão
esse tudo foi acontecendo
como se o impossível de repente
se cumprisse de uma só vez
estas coisas parecem confusas
mas na verdade são simples
a loucura de um é sempre uma desculpa para a sensatez de outro
e no equilíbrio das almas nunca nada se perde e tudo acaba por ecoar e reverberar
ele decidiu por fim inventar o tal passado
e deu-lhe a mão e concordou
sim
teria sido bom ficar nessa lembrança
e ela
surpresa e quase assustada
retirou a mão e pareceu não entender
afinal
nas contas dos devaneios
era ela agora que não o reconhecia
e encarava então que decisão tomar
desmascarar o incómodo
ou inventar um futuro
e nesta indefinição
quer dela quer dele
tanto no que decidir
como em que papel desempenhar
foram ambos ficando até não sobrar nada mais
que não um ténue vestígio de uma absurdidade
“Black&White”, obra de Mr. Dheo, Universidade Católica, Foz do Douro, Porto, janeiro de 2026

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