dia 281 - absurdidade

ela disse-lhe
olhando-o nos olhos

o meu desejo
era termos ficado presos no que me lembro

naquele verão onde no fim de mais um dia
o meu e o teu corpo
repletos de sol e de sal
descansavam juntos
desencontrando-se somente no ir buscar uma bebida mais
e voltando a reencontrar-se com a outra sede por saciar

ele ficou em silêncio 
nunca vira a mulher que lhe falava

teria de tomar uma decisão 

ou desmascarar a situação 
ou inventar um passado

ela esperava por uma reação 
e nas esperas há tempo para acontecer tudo
e até ele desfazer a indecisão 
esse tudo foi acontecendo 
como se o impossível de repente 
se cumprisse de uma só vez 

estas coisas parecem confusas
mas na verdade são simples

a loucura de um é sempre uma desculpa para a sensatez de outro
e no equilíbrio das almas nunca nada se perde e tudo acaba por ecoar e reverberar

ele decidiu por fim inventar o tal passado
e deu-lhe a mão e concordou

sim
teria sido bom ficar nessa lembrança

e ela
surpresa e quase assustada
retirou a mão e pareceu não entender

afinal
nas contas dos devaneios 
era ela agora que não o reconhecia
e encarava então que decisão tomar 

desmascarar o incómodo 
ou inventar um futuro

e nesta indefinição
quer dela quer dele
tanto no que decidir
como em que papel desempenhar

foram ambos ficando até não sobrar nada mais
que não um ténue vestígio de uma absurdidade


 “Black&White”, obra de Mr. Dheo, Universidade Católica, Foz do Douro, Porto, janeiro de 2026


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