dia 276 - seguia de perto

seguia de perto os outros
ouvia-os a conversar
mas o que diziam chegava aos soluços
não era fácil perceber exatamente de que falavam

intrigado fora atrás até eles desaparecerem numa casa velha
esperou na rua encostado a uma árvore

quando reapareceram
vinham em grupos de três
vestidos de fato preto e camisas brancas velhas
uma gravata de breu pendurada desde os pescoços

cada grupo foi por caminhos diferentes
em silêncio e decididos

horas depois
cada um voltou com mais uma pessoa
um vulto sem vontade a ser meio arrastado meio hipnotizado

e foram reentrando na casa antes de o sol morrer

o que fariam lá dentro não sabia
mas decidiu espreitar

o que viu foi cada um desses vultos sentados a escrever
os grupos de três em vigília em cada quarto

e durante horas
pelas sombras da madrugada
iam escrevendo e empilhando as folhas de lado
de vez em quando
um dos três recolhia os escritos e sumia ainda mais para dentro da moradia

regressou a casa antes do sol nascer
a fome e o sono obrigaram-no

voltaria depois
tentaria entender o que se passava

mas a rotina esperava-o
sedenta dele e do desperdício de tempo e vida que se habituara a devorar

e ele esquecera esse devaneio
reentrara no lento passar dos dias
distraído com as urgências habituais
chegou até esquecer onde ficava a dita casa

mas num sonho mais tarde
numa daquelas sestas inesperada que por vezes o invadia
as palavras que ouvira entre aqueles homens e que tanto o intrigaram
revelaram-se-lhe sem cortes nem interferência

um deles falava para os outros e dizia

o fumo que sobe da vela que arde
que se ergue até desvanecer por completo nas alturas
deverá chegar aos céus e pedir desculpa
pela chama que lavra e lhe deu vida

acordou a meio da tarde com essas palavras ainda a ressoarem
e decidiu
nesse exato instante
que sairia de novo à procura dessa gente
que havia que esclarecer do que se tratava
que não era assunto para ficar sem resolução

ao fim de várias voltas pela cidade
lá encontrou a casa
parecia vazia
e esperou pela noite na esperança de os rever

em vão

a espera dura até hoje


Algures em Vila Nova de Gaia, fevereiro de 2018

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