dia 132 - sede gloriosa

ainda hoje
passados vários anos
a memória de um calor para lá de quente arde na lembrança
e a sombra quase inexistente do corpo sob o zénite deixa um simples contorno de penumbra ao redor dos pés

em poucos minutos é obrigado a abrigar-se debaixo de uma árvore
e esperar que o sol se derrame por completo
arqueando lentamente pelo céu
até desaparecer por detrás de uma colina mais elevada
aliviando a canícula o suficiente para que seja quase tolerável

ali o mundo é ancorado por pedras cálidas
que de repente vieram à tona como piranhas esfomeadas
semeadas pelo solo encarquilhado e quase estéril
a paisagem é a de um deserto petrificado e enrugado
cujos delineamentos imitam as palavras de um livro ilegível
mas ainda assim repleto de segredos sedentos em serem descodificados

só que o enigma geológico fica por resolver
resvala pelo tempo sem revelar o mistério por inteiro
deixa que ele paire por essa recordação que continua a aparecer de quando vez

nos entretantos
enquanto caminha no olvido
a vida não sabe a grande coisa
o tempo que sobra é tanto que o paladar perde-se pelo caminho

mas quando esse meio-dia lhe entra pelos olhos
a língua lembra-se da secura e do sabor metalizado de um certo amargor cuja origem se desconhece
todo o corpo sente uma febre externa e
por momentos
pensa que chegou às portas de um inferno
não religioso nem moral
mas de lava e fogo

esta reminiscência que o revisita
serve-lhe de lição

qual
não sabemos
pois fica com ela dentro e nunca a partilha

mas é impossível não reparar
que quando regressa dessa memoração
várias gotas de suor caem-lhe do rosto enquanto ele se precipita para um copo de água
como um felino a lançar-se sobre a sua presa

e nós todos assistimos à matança de uma sede gloriosa


Quinta do Bomfim, Pinhão, fevereiro de 2018

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