dia 130 - meandros

do nada
do néant como se diz em francês que é uma palavra com ainda menos lá dentro
um vazio tão nulo que fica difícil de conceber

mas foi daí
desse lugar sem sequer o ser
que tudo surgiu num momento particularmente específico
para que depois acontecesse o que acabou por acontecer

e não se sabe como foi possível
mas as evidências de que o foi são incontestáveis

ou como se explica o mistério e o silêncio que jazem no relato

ele contou o que aconteceu várias vezes
todos ouvimos todos questionámos e todos acabámos testemunhas

poderia ser mentira ou um mal-entendido
disseram e perguntaram alguns

mas eram perguntas sem resposta
porque a história não tinha outra solução
que não fosse o paradoxo da própria impossibilidade acabar por ser desmascarada pela realidade

destes meandros ninguém escapa ileso
há que sofrer as ambiguidades pelo que elas são
e trata-se de ir bem mais além do pasmo ou da incredibilidade

do nada
onde tudo começou
até aqui
onde tudo se explica
vai a distância de vários versos
e até hoje
que eu saiba
ninguém escalou de volta um poema que não fosse para cair uma e outra vez


Belvédère de la Carelle, Gorges du Verdon, Provence-Alpes-Côte d'Azur; novembro 2022

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