mas nos olhos uma tempestade ia crescendo
corria em turbilhão pelo olhar
todos esperávamos pelo que poderia acontecer a seguir
e o tempo parecia acumular-se em tensão por toda a sala
uns antecipavam uma loucura
outros temiam algo pior
um surto descontrolado que acabaria por rebentar com as portas e as janelas
até que sem aviso tudo amainou
como se toda a emoção contida tivesse sido tragada para dentro de uma só vez
engolida pelo corpo para o fundo da alma
serenámos
mas um de nós disse
vai deixar marca
e percebemos
não haveria como esquecer o que não aconteceu
algures no poço dela tudo aquilo ainda esperneava
mais cedo ou mais tarde conseguiria soltar-se e voltar à tona
quem sabe até
se não mais intensamente
ou então
esse peso condensado atingiria uma singularidade
e toda ela implodiria de uma só vez sorvendo-lhe o corpo e a própria sombra
e nós e a sala e o mundo iríamos atrás
sugados num vórtice aniquilador e inevitável
mas não
parecia mesmo que o pior tinha passado
ela retomou o lugar de sempre e nós regressámos às bebidas
a música voltou a ecoar pela noite e lá fora os semáforos regressaram aos soluços intermitentes do costume
no fim
quando já só estávamos ela e eu
ousei perguntar
quão perto da tragédia passámos
ela olhou-me levantou-se e antes de sair atirou
demasiado perto
tão perto que tive de de me desviar de mim mesma
não devo voltar a encontrar-me
quando a porta se fechou e eu fiquei só
reparei que no lugar dela pairava um ar de ruína
como se alguma coisa tivesse aberto uma fenda no tecido disto tudo
era o universo que hesitava em ir sendo ou em abdicar
"La Maison dans la Loire", obra de Jean-Luc Courcoult; Couëron, França, outubro de 2017
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