enquanto dizia estas palavras
bebia o café preto e amargo do qual nunca prescindia
nós ouvíamos com a atenção possível
estávamos todos sozinhos há demasiado tempo
o isolamento vinha de antes
tinha nascido num antigamente
numa era de antepassados cujos nomes já ser perderam
mas aí ficou
esse isolamento como uma herança inevitável
e agora
perante essas palavras
a esperança de um escape mingava de cada vez que uma nuvem desaparecia ao longe
o velho voltou a falar
eu sei que todos pensavam que a fuga estaria para breve
mas sem caminho não há fuga
e sem fuga o que sobra é paciência
aceitámos e recolhemos
paciência havia a rodos
dava tropeçar nela em cada canto da aldeia lamacenta
mas um dia
depois de se esgotar este exílio do resto do mundo
quando não houver mais por onde esperar e o velho morrer
então poderemos deixar de estar sós
o caminho revelar-se-á luminoso
e quem sabe se mais do que uma saída não seja ele uma entrada
e o mundo que nos escapa
venha a nós
entre pela aldeia dentro e se junte
assim
poderemos partilhar a solidão entre todos
Sem comentários:
Enviar um comentário