dia 121 - os isolados

cada vez é mais difícil encontrar o caminho

enquanto dizia estas palavras
bebia o café preto e amargo do qual nunca prescindia

nós ouvíamos com a atenção possível
estávamos todos sozinhos há demasiado tempo

o isolamento vinha de antes
tinha nascido num antigamente
numa era de antepassados cujos nomes já ser perderam

mas aí ficou
esse isolamento como uma herança inevitável
e agora
perante essas palavras
a esperança de um escape mingava de cada vez que uma nuvem desaparecia ao longe

o velho voltou a falar

eu sei que todos pensavam que a fuga estaria para breve
mas sem caminho não há fuga
e sem fuga o que sobra é paciência

aceitámos e recolhemos
paciência havia a rodos
dava tropeçar nela em cada canto da aldeia lamacenta

mas um dia
depois de se esgotar este exílio do resto do mundo
quando não houver mais por onde esperar e o velho morrer
então poderemos deixar de estar sós
o caminho revelar-se-á luminoso
e quem sabe se mais do que uma saída não seja ele uma entrada
e o mundo que nos escapa
venha a nós
entre pela aldeia dentro e se junte

assim
poderemos partilhar a solidão entre todos


Santo Amaro do Maranhão, Brasil, agosto de 2025

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