dia 129 - perpétua

das várias hipóteses nenhuma era auspiciosa
mas para pelo menos sonhar em ser livre
sabia que qualquer uma das possiblidades dançaria com a morte

fosse fugir pelo meio da noite e fundir-se nas sombras
fosse perder-se nas palavras e desaparecer em linguagem
fosse mergulhar para dentro e arder em loucura

as decisões já levavam o atraso de uma vida
não chegaria ao lugar para onde supostamente iria
e agora
não parecia existir caminho de volta para onde de facto já esteve

a existência ia pingando
como a cera que se acumula contorcida no chão e caindo de velas suspensas
e ele continua a caminhar descalço pela prisão
ancorado no caos do que deixou de imaginar

do lado de fora ninguém o espera nem ninguém o lembra
há um deserto de abandono que jaz inerte
mas ainda assim
ele sabe que do lado de dentro há algo pior
o tédio infinito do previsível que só ameaça e nunca se cumpre

resta-lhe o tempo e o poder de o espremer até que nem ele sobre
olhando as próprias mãos que se encarquilham
adensando as linhas da sina até ser impossível ler-lhes o final

o isolamento não o levaria à solidão
ele sabia da existência dos carcereiros
sabia da memória e do passado
sabia até do eventual futuro silencioso

a solidão era uma outra coisa que ele nunca provara
e curiosamente
neste vendaval febril
dava por ele a ansiá-la

tudo isto aconteceu no primeiro dia após a detenção
menos um dia na sentença de perpétua por cumprir

já faltou mais

pensou alto enquanto não adormeceu


"Autorretrato. O Caminhante Noturno", 1923/24, de Edvard Munch; Galeria Albertina, Viena, Áustria, abril de 2022

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