dia 125 - em três lances

havia uma navalha na mão e a intenção de um duelo
ou pelo menos uma variação de um duelo
porque desde que houvesse sangue e um arrependimento depois
tudo voltaria ao lugar e a história viveria uns anos nos relatos ébrios da aldeia

tudo começou umas horas antes
era de noite quando uma pedra resvalou pela falésia
isto depois dele a ter empurrado com o olhar durante horas

quando contou a peripécia o mais calado da plateia não acreditou
olhou para o lado bocejou e sorriu ao de leve

o narrador ofendeu-se e sacou da faca
o outro levantou-se e fez o mesmo

em três lances a coisa resolveu-se
o primeiro lampejou numa centelha rápida
o segundo cortou o ar num silvo curto e firme
o terceiro foi um suspiro que num ápice atravessou a garganta de um deles

um caiu o outro saiu

ninguém sabia quem era quem
se o silencioso se o telepático que empurrava pedras com os olhos

o que sobrou foi o calor que nunca esmorecia
o bafo às portas de um inferno difuso onde as lembranças se fundiam com as lendas

já o sangue
esse
ainda hoje jaz e faz de sombra no chão do café
como um poço sem fundo
de onde nem os versos escapam
quanto mais um relato que faça sentido


Algures em Djerba, Tunísia, agosto de 2017

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