dia 126 - em vão

haverá um nome para as madrugadas que passam sem deixar rastro
como se
envoltas de insónia varassem o tempo pela calada
deixando do lado de lá
onde o dia começa a nascer
um sabor a desperdício e a remorso
que seca e prende o trago numa garganta desprevenida

esgotou-se um pedaço de existência sem sequer se esboçar uma intenção de a viver
um adiamento do inevitável para o demasiado tarde
um reino por conquistar ou por defender
um corpo por sentir amar ou mutilar

haverá um nome com certeza
e ele é dito mais tarde
lá para o fim da vida
numa dessas tardes de balanço onde se pesam os arrependimentos

mas o que é um se quando ao lado o mundo real pulsou de verdade
o que é um se quando tudo é somente uma questão de perspectiva

essas madrugadas que escaparam num ápice deram à costa de qualquer forma
suas carcaças empilharam-se e apodreceram como tudo o que não serve para nada
e o fedor durou algum tempo e incomodou
mas acabou por desvanecer
e nós acabámos por vibrar e deixar uma outra marca por aí
há que pensar que nem tudo foi em vão

ou terá sido

não se sabe bem
mas pouco importa
porque mesmo o que foi em vão tem o seu enlevo
mesmo o que foi em vão teve o seu grito de libertação


Lanzarote, Ilhas Canárias, agosto de 2015

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