dia 124 - diário de um pequeno caos

movem-se nos intervalos da atenção urbana
encontram por entre silêncios o espaço necessário para deixarem a sua marca

codificam uma linguagem impenetrável
até deles mesmos ouso dizer
porque é no secretismo que semeiam mais mundo no mundo

há centenas de milhares de anos
nas cavernas
alguém sentiu o mesmo apelo
deixar uma marca como âncora para a eternidade
ou em parte dela
que isto de eternidade é muito tempo e uma maré arrasta tudo mais cedo ou mais tarde

vão deixando vestígios cuja lógica ainda está por inventar
e o que dizem se calhar nem sentido faz
valem pela intenção

um diário de um pequeno caos
uma expressão artística momentânea
mas que poderia levar à resolução de um mistério não fosse ele irresolúvel

vou passando por eles
uns que arrebatam outros que se ficam por um vandalismo de mau gosto
mas todos reais e agarrados à matéria
incontornáveis

esses traços acabam por abrir um caminho que não estava lá antes
e um caminho
dando ou não a lugar algum
pelo menos permite uma escolha

e escolher é a escapatória da solidão
da verdadeira e terrível solidão

porque a escolha revela-nos a nós mesmos
e ninguém está só quando se depara consigo mesmo


Rua de Cristelo, Porto, abril de 2026

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