sentado junto ao mar numa cadeira ainda mais velha
tinha tiradas de sabedoria
ou pelo menos tiradas com a pose de sapiência
dizia coisas como
tens de aprender os prazeres
já que inevitavelmente vais carregar as dores
ou
herdaste o fóssil que vais ser no futuro
a não ser que te consumas aqui e agora no presente
e ao longo dos dias e das tardes
quem por ele passasse
tinha direito a esses remates definitivos e cheios de verdade
mesmo que essas verdades fossem crípticas
elas acabavam por entrar em quem as ouvia e acender uma centelha de esperança
ninguém sabia a história do velho
de onde vinha e como fora ali parar
uns diziam que tinha sido marinheiro
e que um dia adormecera em terra e o barco partira sem ele
outros diziam que tinha vindo do campo
que ao ver o mar pela primeira vez se sentara com o espanto
e desde então por ali ficara a ver as ondas
quando chovia a cadeira ficava vazia
mas qualquer outro dia ali estava
de olhos no horizonte e a língua pronta com revelações
quando me cruzei com ele há muitos anos disse-me
quando escreveres sobre mim
não te esqueças de contar a verdade
na altura não percebi
confesso que fiquei sem saber se era uma profecia ou uma mentira
mas hoje compreendo
e devo-lhe o que me pediu
por isso aqui revelo
o velho nunca existiu
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