dia 131 - o velho que nunca existiu

o velho
sentado junto ao mar numa cadeira ainda mais velha
tinha tiradas de sabedoria
ou pelo menos tiradas com a pose de sapiência
dizia coisas como

tens de aprender os prazeres
já que inevitavelmente vais carregar as dores

ou

herdaste o fóssil que vais ser no futuro
a não ser que te consumas aqui e agora no presente

e ao longo dos dias e das tardes
quem por ele passasse
tinha direito a esses remates definitivos e cheios de verdade

mesmo que essas verdades fossem crípticas
elas acabavam por entrar em quem as ouvia e acender uma centelha de esperança

ninguém sabia a história do velho
de onde vinha e como fora ali parar

uns diziam que tinha sido marinheiro
e que um dia adormecera em terra e o barco partira sem ele

outros diziam que tinha vindo do campo
que ao ver o mar pela primeira vez se sentara com o espanto
e desde então por ali ficara a ver as ondas

quando chovia a cadeira ficava vazia
mas qualquer outro dia ali estava
de olhos no horizonte e a língua pronta com revelações

quando me cruzei com ele há muitos anos disse-me

quando escreveres sobre mim
não te esqueças de contar a verdade

na altura não percebi
confesso que fiquei sem saber se era uma profecia ou uma mentira

mas hoje compreendo
e devo-lhe o que me pediu
por isso aqui revelo

o velho nunca existiu


Praia do Meco, agosto de 2017

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