Com todo o universo
ao encontro
descer de mim
ir até à estacão
ou ao cais
ou à biblioteca
ou às profundezas da alma
e ir ao encontro
de todos os combóios
de todos os barcos
de todos os versos
de todos os gestos
regresso
Casa
Douro
o definitivo
a mais obscura revelação da verdade
apenas teu
tempo resvalado para o passado
palavras não escritas no adiamento de seres tu
a mesma velha história de calares
de te esvaíres em sombras no lento correr dos dias
no desvanecer das noites
no derramar sereno das madrugadas
a velha lengalenga do teu abandono perante a escrita
a tua sina
seres o teu silêncio
igual a tantos outros
mas teu
só teu
apenas teu
a beleza absoluta
as árvores ao contrário
as árvores ao contrário
as raízes no cimo, magras e histéricas viradas ao céu, recortando os veios em contraste com o branco das nuvens pálidas
em silêncio petrificado, um esforço derradeiro de seiva, em vão por agora
talvez mais à frente na combustão da primavera recuperem e disfarcem em folhagem o esqueleto real que vão sendo
o que revelam para já é a contradição da própria existência
a batalha contra a força invisível da gravidade a cada ramo que se ergue um pouco mais e a luta assombrosa de cada raíz que rompe o atrito do subsolo, pela terra e pedras que as trava
as árvores hibernadas delas mesmas, quietas em silhueta, pilares de nada, monumentos do mais profundo desconhecimento
mesmo sem palavras II
mesmo sem palavras
sombra sobre sombra
pede-me versos
e finalmente cedo
como um vício
um arrebatamento da alma
e por isso mesmo
sendo um vício
nem sempre é bonito de se ler
testamento
como tudo se deixa quando se apaga
deixo nada
como nada se deixa quando se some
e o meu testamento é igual ao de todos os homens
vazio e silencioso
um infinito de nada
certamente ecos do que fiz permanecerão algum tempo
vibrando na lembrança de alguns
mas tudo o tempo consome
tudo o tempo dilacera e fulmina
a própria carcaça mingará até ser pó
até regressar à quietude que é definitiva
deixo tudo e deixo nada
as próprias palavras espelho disso mesmo
som e silêncio
ideia e deserto
finais e fúteis
houve um tempo
iluminando os quadros e desenhando sombras sobre as paredes
havia o mar ao fundo sob um céu de azul intenso
enrugado de prata, estilhaçando a luz em mil reflexos
as horas a passar devagar ao ritmo do silêncio
tu e toda a quietude desse cenário
a profunda melancolia da solidão
da espera
houve um tempo de noite a esgueirar-se sobre o sol
a cobri-lo aos poucos levando-o para lá do horizonte
deixando sobre a mesa da sala toda a poesia possível
todo o teu atabalhoamento com as palavras
esse doce jogo de literatura que te enganava
tanto parecendo infinito como perecendo no mesmo instante da leitura
houve um tempo de madrugadas eternas
o firmamento insistindo em escuridão largas horas
e a tua insónia enraizada nas páginas alvas dos cadernos
houve um tempo de manhãs pálidas
esgotadas por noites em branco
manhãs deitadas em camas por fazer
onde te encolhias e finalmente dormias
ou algo parecido com dormir
adiavas-te esperando um futuro imaginado
conquistado por dentro mas deserto por fora
como todas obras por criar
Torrente
A imensidão
Juntos
A tentativa de alcançar o impossível
Viste-o de novo ontem. Passaram-se anos. Está com melhor aspeto. E, se aos teus olhos, permaneceria um Grande, mais ainda o é hoje pois viste-o a escrever.
Comprometido com as palavras. Talvez seja mais forte do que ele mas escrever é isso mesmo, abraçar a sina das palavras, ir mais além.
Morreremos todos e no infinito disto, seja no desfalecer do universo, seja no recomeço cíclico do cosmos, o silêncio, o profundo silêncio prevalecerá. A questão é que alguns, poucos, heróis, danados, condenados, no intervalo disso, abraçaram a poesia com a alma e o corpo e dedicaram-se à imortalidade.
Em vão, sim.
Mas não há nada de mais belo que a tentativa de alcançar o impossível.
um dia repleto de silêncio
essa vertigem
o silêncio que se diz
na combustão silenciosa do cosmos
num oceano de forças incomensuráveis
na origem do próprio tecido do espaço
e do tempo
resultado de um acaso
seguidor das regras imutáveis da ciência
essa religião caótica cujos dogmas se aniquilam entre gerações
chegar a este momento
a este espaço em branco
é um milagre inexplicável
a poesia é tão só
um eco das explosões celestiais do antigamente
um antigamente tão distante
que tornava impossível a leitura inicial
as letras eram do tamanho das galáxias
e os nosso olhos menores que átomos
o livro não tem grandeza perceptível
os versos são como raios estelares
lançados à velocidade da luz rasgando todo universo
de ponta a ponta
sem início
sem fim
já o escrevi antes
a poesia é o silêncio que se diz
O Medo de Al Berto
manhãs limpas de inverno
Memória e amnésia
negro dos abismos
ao mais profundo infinito
a criação
atirando sobre o mar negro uma sombra ainda mais vasta
desenhando o fogo prometido o fogo já escrito
a combustão derradeira das almas a supernova esculpida pelo pai de cronos
o aniquilar final de toda a dor inquietação e o seu contrário
não são premonições o que se escreve
não são certezas ou sequer possibilidades
não são ideias não são versos
não são nada
o clarão queimou a noite
semeando cinza por todo o firmamento
derramando as labaredas já faladas as chamas já gravadas
o lume último dos espíritos a explosão estelar atiçada por urano
o funeral de toda a pena angústia e o seu oposto
o ato primeiro
o gesto inicial
o acaso de uma palavra se seguir a outra e assim em diante
até à exaustão das infinitas possibilidades e no meio delas
no tal clarão
surgir poesia
como surgiu a vida nesta terra

