cumplicidade


rostos e almas penadas
sem rumo nem porto seguro à espera
faces apagadas sem expressão que denuncie uma réstia de normalidade
todo um tratado sobre a loucura de quem se perdeu

mas apesar de tudo isto
lado a lado
a cumplicidade é tecido feito de eternidade
e por muito que se estique que se esfarrape que se canse
não se desune nunca

quadro numa galeria em Aix-en-Provence

deixar umas palavras antes de ir

deixar umas palavras antes de ir

definitivamente o privilégio de semear partidas e voos para longe
de mergulhar na ausência da rotina para a ela poder voltar de olhar cheio
comungar com outras sombras e cheiros
com outros silêncios distintos
de abraçar o infinito de mundos que nos calhou descobrir

e no fim reencontrarmo-nos diferentes e iguais
regressando ao mesmo lugar sendo ele então um outro lugar
porque no fundo seremos nós uma outra pessoa

e se aqui andamos é para isso
para sermos tudo o que pudermos ser

nada teu exagera ou exclui

dos solos

os velhos hábitos são teimosias disfarçadamente inatas
são o erro recorrente de se fazer uma mesma coisa esperando um resultado diferente

mas fazem parte do que somos
e quando o chão se torna estéril a culpa não é da semente nem do lavrador

sim, o lavrador poderia ter tido mais cuidado
e sim, a semente poderia ter tido um outro vigor
mas quando o solo se esgota não há cuidado nem vigor que dêem fruto

mas nem a semente perdeu a promessa que carrega
nem o lavrador perdeu o sonho de colher

apenas precisam de outros solos

e outros solos buscarão nesse velho hábito de errarem
de inequivocamente serem eles próprios

e a fruta terá outro sabor e portanto outra fruta será
e o lavrador outra colheita fará portanto outra pessoa tornar-se-á

e do solo brota sempre a verdade
mesmo feia quando o é
mesmo triste
mesmo nada quando dele nada nasce mais

resta a única certeza absoluta
mais cedo ou mais tarde
ao solo, semente e lavrador voltarão


a perspectiva cósmica

a perspectiva cósmica
tê-la presente nos desencantos que nos calham
saber que tudo isto foi forjado há uma imensidão de ciclos atrás, num mar inicial de indescritível cenário
uma fornalha densa sob a força inquebrável das regras elementares, agregando átomo a átomo, fissurando-os, disparando-os em alucinantes trajectórias onde o caos era a linguagem divina e onde todos os elementos se geraram
para daí iniciarem uma viagem improvável até à ínfima possibilidade de semearem aquilo a que chamamos vida

essa perspectiva poderá não calar uma dor, sarar uma ferida ou lamber uma lágrima
mas pelo menos, no fundo da alma, iluminará a esperança de regenerarmos
pois também nas catacumbas dos genes, no silêncio microscópico do ADN nada se perde, nada se cria e tudo se transforma
e o gume da dor se suavizará, a cicatriz das feridas se esbaterá e as lágrimas evaporar-se-ão em nevoeiros feitos penumbra


a teoria

Era uma avenida larga e a noite cobria a estrada, os prédios altos que a ladeavam e todo o céu por cima. Somente nas esquinas os lampiões derramavam uma luz baça e poeirenta que esmorecia assim que chegava ao chão. Metido na gabardina e no chapéu, um homem caminhava junto aos prédios.
Recordo-me dele e das suas teorias. Tínhamos falado uma vez numa madrugada de cigarros, cervejas e música aos berros num café perto da praia. Segundo ele, neste tipo de avenidas nocturnas e desertas, estavam nas caves de todos estes edifícios, uma infinidade de homens e mulheres sentados cada um numa mesa a bater à máquina horas e horas a fio. Contou-me que eram empregados por um louco cujo sonho era alcançar o texto mais belo de sempre. Apostava no acaso, sabia que a chave de tal texto existia na incomensurabilidade de combinações existentes no teclado das máquinas de escrever, que a matemática e a probabilidade eram algo real, algo possível. Não se sabe ao certo quantos escribas teria já ao dispor na sua demanda, mas o homem da gabardina jurava-me que o numero ascendia aos milhares e que o recrutamento não terminava nunca. Dizia também que o louco revia todos os textos ao amanhecer, que os olhos de tanta leitura tinham-se afundado por dentro do rosto numa miopia astronómica. Via já tão mal que o olhar tinha dado a volta do imaginável e que por isso, agora, via tudo.
A avenida continuou silenciosa e o homem atravessou-a, ficaram apenas os lampiões a diluir a luz leve no breu denso da madrugada. A mim, pareceu-me ouvir o rumor continuo do bater das maquinas de escrever vindo dessas caves profundas, mas poderia estar enganado. 

biblioteca

Disse-me o meu pai uma vez que a melhor escola para um escritor é a biblioteca. O sentido de tal afirmação entende-se facilmente: ler e ler muito para poder tentar escrever depois.
Mas a dita frase é aqui colocada apenas por uma razão (de toda as almas vivas no mundo, somente a presente e mais uma poderão alcançar. Imaginemos a vertigem de tal coisa). Razão essa que é a palavra biblioteca. E à razão e à palavra voltarei em breve, mas, primeiramente, convém dizer que, ao fazê-lo, quebro a regra sagrada que me impus na minha relação com a escrita. Regra essa que fica muda e secreta.
Porquê então a palavra biblioteca? Porque amanhã, ou hoje (ou daqui a mil eternidades, dependendo do momento da leitura), gostava muito de poder estar num jardim cuja entrada tem 4 esculturas representando as estações do ano, onde pavões se esgueiram entre flora caleidoscópica e, sobretudo, onde se ergue um templo de livros.
E escrevo por impulso, o medo, a vergonha ou o arrependimento que venham depois, se vierem.
A ridícula verdade é que amanhã gostava muito de poder ir a uma biblioteca mas não posso.

E isto deu um texto.

assim

assim
na absoluta quietude do que já foi
daquilo do que definitivamente já não é
na tempestade silenciosa da escuridão
no tecido do mais profundo breu
(onde a noite é tão espessa que nem a luz da infinidade de estrelas existentes penetra)
jazes na solidão de tudo

e a paz é isso, a ilusão de que o que sentes paira como um rumor leve sob as águas do teu próprio lago

então um verbo nasce-te na língua e nas mãos

alcançar

é um verbo que não o é
uma intenção abstracta
uma possibilidade
uma hipótese
um se
um gesto por desenhar
um sonho portanto

e nas palavras cumpre-se, ficando ainda assim aquém, como é de sua natureza
de outra forma não poderia ser

e já nem de ti depende porque neste pasmo derradeiro reside a verdade final de tudo
o verso preciso que remata a tua alma
e mesmo que não o saibas ler ou dizer
em ti se pronuncia como um tremor vindo de uma esquina por descobrir e dobrar
percorrendo todo o teu corpo
um estremecimento tal que mesmo estando tu quieto
a silhueta da tua sombra estremece no contraste das paredes nuas da sala
e aí ecoa vibrando e desvanecendo muito devagar como um peão que rodopia até se calar

assim.

dia limpo de sol


hoje foi um dia limpo de sol
todo o azul possível derramado no firmamento
e sobre o mar uma manta de luz estilhaçada até ao horizonte a vibrar como quando olhos se inundam de lágrimas 

na praia um leve sono esquecido a salgar sobre as pedras
e de algas e areias se ergueram castelos irreais onde gaivotas descansaram logo após um esquisso de voo infinito
daqueles voos que mesmo depois de cessarem se prolongam num outro desenho e num outro céu por dentro de nós
quais tatuagens de alma
cicatrizes de uma outra pele ou lembranças do que nunca chegou a ser

trilogia do início - antes do antes

trilogia do início

I

antes do antes

agora sim, o silêncio mais profundo, aquele cujo rumor é feito dos ecos do que fomos, tudo polvilhado por aí entre as sombras invisíveis dos gatos ausentes, sem gestos felinos que se vejam nem olhares que se cruzem

há a possibilidade de todas as coisas e a impossibilidade de coisa nenhuma
escorre das paredes um musgo primordial, um magma do tudo por vir, como lá no infinito do longe nas fornalhas das estrelas e galáxias onde os elementos se moldam sob a pressão das regras elementares, agregando átomo a átomo, criando aquilo que precede os sonhos, as desilusões, os sorrisos, as paixões, as tardes de sol, as esperas nas paragens de autocarro

agora ainda não é agora
é quase
porque o caminho dos elementos forjados no cosmos até ao cintilar da vida na Terra, levou eternidades
precisas também tu das tuas eternidades
do lento correr dos dias, dos silêncios, da solidão e sua penumbra envolvente

por isso, o tempo de tempo precisa para se revelar novo, de novo, inocente.

antes do antes.

escrever, a loucura inevitável


a escrita ausente da tua rotina por força de uma preguiça que te povoa desde que te conheces
 
escudas-te na inspiração que te visita a espaços
que se molda numa falsa perfeição, numa aparente verdade que julgas alcançar
 
e isso te satisfaz fugazmente, como um arrepio, um orgasmo, um papel atirado de longe para um caixote
 
na verdade para escreveres precisas de duas coisas: ler (e isso cumpres) e insistir no erro permanente de tentar (isso já não cumpres)
 
errar sempre, errar melhor, teimar, marrar, sentares-te todos os dias e estatelares-te no branco silêncio das folhas, fazê-lo com casmurrice irredutível, com uma fé no absoluto desalento de escreveres nada e nada
e muito nada e ainda mais nada de jeito
 
recorda-te de um professor que tiveste ainda na escola
um homem que entrava a declamar poemas em alemão numa aula de francês
um homem com cara de cientista louco
e que perguntava com uma certeza inabalável lá no meio:
"quando nada tens a dizer, o que dizes?"
 
e leva isso contigo, a partir de agora, todos os dias para o que tens a dizer
 
e escreve, pouco, muito, muito pouco, muito mal
 
constrói uma disciplina férrea e dedica-te a ela como um culto
fá-lo secretamente, nas sombras, na quietude
ou à luz do dia, no corpo por tatuar dos teus cadernos silenciosos
regressa aos cafés onde mergulhaste no passado, semeia-te na tua nova sala e colhe o que as esquinas te ditam
compõe prosas e versos mutilados pelo teu atabalhoamento
faz da palavra o escape de uma voz por descobrir como dizia o Cohen
encontra-te com todos os vultos ainda por moldar
sê o que nunca imaginaste
e quem sabe talvez possas, como sempre, deixar mais esta promessa por cumprir
e é sabido que enlouquecem os homens que não cumprem as promessas
mas tu sabes também, que muitos enlouqueceram
por promessas terem cumprido
 
escrever, a loucura inevitável.

dos falsos cometas


dos falsos cometas
 
diziam, no início dos tempos, que a palavra, quando nasceu, trouxe nela todo o possível
toda a verdade e, claro, toda a mentira
no infinito total da lotaria que o léxico nos oferece estão as mais belas declarações de amor bem como todas as incompreensões e ilegíveis afirmações
 
o poeta opta perante este céu imaculado de fim da tarde usar a expressão de falso cometa para descrever o rastro que lá no alto ecoa
 
eco esse que fica para sempre, pois tatuado em verbo nada o apaga mais
pois suas ondas de ressonância dispararam em direção aos confins de tudo isto
 
talvez esmoreçam no profundo cosmos, ou se consumam nas fornalhas distantes criadoras de elementos e galáxias
 
mas não morre mais a sua lembrança
 
um céu, um traço, um amontoado de palavras
haverá poder maior?

outra coisa


aguardam o momento certo para se elevarem também na galeria nua da tua sala, pois já na tela se elevaram quando o artista as alcançou
o silêncio profundo de uma pintura por pendurar
qual rumor do mar nas madrugadas solitárias
 
existe um lugar especial entre o momento presente e o momento futuro, um entretanto impossível de perceber, de afagar, os quadros por expor aí se encontram, num limbo incerto de cronos
a planície imensa de uma ideia ou de um sonho estende-se nos gestos adiados das nossas vidas
 
se por um lado tenho de pendurar quadros, por outro lado gostava de fazer uma outra coisa
 
e se escrevo sobre telas encostadas ao solo não é sobre telas encostadas ao solo que quero escrever, é sobre a outra coisa

trovões silenciosos

 
 
é em certas esquinas de espuma e chumbo que se formam os trovões silenciosos
ondas profundas da alma onde cardumes de peixes por inventar nadam em uníssono
como vagas de harpas em mãos de sereias sem rosto
ah como sonho em ser um desses lobos do mar que o sol queima
e cuja pele é esculpida camada a camada até serem estátuas de sal negro onde no lugar dos olhos está somente
o oceano inteiro
relâmpagos cegos que desenham a noite num breu tão denso que nos chega apenas o rumor do possível 

ao dia mundial da poesia


o tempo que não se deixa enganar, que nos leva inevitavelmente à derradeira igualdade que é o silêncio

por isso aquilo que nos distingue não será a quietude a que estamos destinados
mas antes o assombro que possamos criar nos entretantos
as ondas de impacto que gerarmos com a alma, com um sorriso ou com um gesto
as sombras que consigamos deixar para trás
os vôos que alcancemos em desenho para lá de nós
a entrega sem medos ou com todos eles que façamos ressoar nas noites profundas da cumplicidade
a poesia, esse silêncio que se diz que interrompe a pequenez que nos eleva e nos coloca no berço da pertença

pertencer a alguma coisa
nem que seja a nós próprios

a mais absoluta das belezas

Na verdade, nunca sabemos o que queremos e ainda menos sabemos do que precisamos. As necessidades do espírito movem-se por caminhos dúbios, revelam-se de formas inesperadas. Mas se de incertezas é a vida feita, ela acaba também por ser feita de algumas certezas. Tudo isto para dizer que precisava de cá voltar. Ao Douro. E é certo, igualmente, que terei sempre de cá voltar, de cá perder o olhar para poder, no fim, reencontrá-lo renovado e inocente uma vez mais. A alma tem curiosas formas de se revelar, de se render, e nada como um banho de xisto e de silêncio, de esforço de seiva e de sangue para renascer no mesmo deslumbramento de sempre.
Não há nada igual a isto, não há mesmo. Este rio, estes montes, estas vinhas. Porque o Douro é o impossível, o inimaginável. E de todas as vezes é sempre uma primeira vez, um permanente reencontro com o início e com a inocência. Porque não há habituação à mais absoluta das belezas como disse o Torga.




casaco de ganga

Comprei um casaco de ganga. Só tive dois casacos de ganga. Um quando andava na escola armado em grungeiro e outro na faculdade que raramente usava. Este é o terceiro. É de ganga cinzenta, forrado a flanela azul e branca e tem na gola uma lãzita de cor de ovelha suja.
O simbolismo disto é que por vezes sabe sentir um abraço do passado esquecido. Como um regresso inesperado ao ninho.

cadernos vazios

Vieste, sem falar, para junto da janela. O céu ao longe desenhado por algumas nuvens, deixava, ainda assim, entrever o sol.
Vários rastos de avião cruzavam no alto. Na estrada passeavam-se algumas pessoas no início de tarde.
Abriste a janela. Uma brisa entrou e enroscou-se nas cortinas.
Olhava-te, sentado enquanto limpava o pó de um caderno cheio de palavras.
Um dia leio-te tudo isso. Palavra a palavra, verso a verso. Talvez uma emoção nasça dessa leitura. Algo inútil com certeza, mas real. E então, ao olhares pela janela verás que esses rastos de vôos no alto, desenham uma teia infinita de destinos adiados, de silêncios, de futilidades.
Para que saibas: tenho cadernos igualmente vazios, adiados.




sem ti não há manhãs

uma manhã que seja sem o eco do teu corpo sobre a cama
ou sem o som dos teus passos no quarto ao lado
ou sem a tua silhueta desenhada por trás do vidro embaciado do banho
é uma manhã vazia.
por muito sol que inunde as paredes
por muita chuva que resvale nas janelas
sem ti não há manhãs.
sem ti não amanhece nunca.

abandono perpétuo da palavra



O teu abandono perpétuo da palavra. Cemitérios de silêncio lavrados com a tua ausência. O que deixaste por dizer jamais será dito. Essa ferida não sara mais, não sara nunca.
O compromisso com o verbo estilhaçado por infinitas páginas em branco. Dos ecos da tua sombra nem penumbra ficou. Nem cinza nem pó. Nem a intenção, essa etérea nuvem que por vezes resiste a tudo, nem ela, esfumou-se no breu derradeiro do esquecimento.
Que resquício de contentamento pode sobrar? Apenas uma promessa quebrada. E é sabido, uma promessa quebrada é o atalho para a loucura. Queda, talvez, uma escapatória: é igualmente sabido, que uma promessa cumprida é, também, muitas vezes, o desvio imediato para a demência.
Se ficar perdido era a sina irremediável, o caminho para a cumprir seria, porventura, irrelevante.

Sicília, notas avulsas para memória futura

Curiosamente, começou em Espanha a aventura siciliana. Voámos do Porto para Madrid onde fizemos uma escala de várias horas. Nessa paragem encontrámo-nos com amigos do tempo de Erasmus da Lira. Todos italianos e com conselhos ótimos para os dias que se avizinhavam. A lista reproduzida abaixo foi uma cábula preciosa sobre gastronomia. A amizade criada em Erasmus valeria uma reflexão própria, é uma amizade feita do mesmo tecido que a família, não se explica, fica para sempre, como uma tatuagem na alma, e a cada reencontro os contornos desse desenho adensam-se.


Dia um na ilha. Fomos ver o mar. Há uma luz própria do Mediterrâneo e dos seus mares. Um azul primitivo, telúrico passe a aparente contradição. Esse manto azulado serviu de berço a muitas civilizações e parece que a cada vaga leve nos relembra tudo isso 2- Palermo, tarde, contato com Mediterrâneo, cor azul. Noite palermo, peixe fresco, grelhado na hora. Palermo enorme.
 
 

 
Primeiro contato com Palermo. Na minha ignorância não pensei que fosse um cidade tão grande. Perto de 700000 habitantes, Palermo não é uma cidade fácil. Pesada, densa, um pouco suja. Mas perto do centro histórico não faltam coisas bonitas e sente-se, como só em alguns sítios, o caratér do local e das suas gentes, um orgulho palpável. Encontrámos um mercado/restaurante numa praceta que nos tirou a barriga de misérias. Escolhia-se o peixe e marisco fresquíssimos na hora e tudo saltava para a grelha o sertã para cozinhar.
 

Dia 2, novo encontro com uma amiga do tempo de Erasmus da Lira, em Patti. Recebidos pelos pais da nossa amiga Federica, comemos pasta alla norma e de sobremesa cannoli, depois de uma bela manhã de praia. Cannoli foi uma descoberta revolucionária. Eu que não sou especialmente fã de sobremesas, este biscoito recheado a ricota entra no meu top 3 de sempre.


De tarde visitámos Cefalu. Baía saída dos livros sobre piratas. Ruelas com cheiros de outro tempos e o sol a desvanecer devagar.


Dia 3, visita à reserva do Parque Natural do Zingaro. Um Gerês mas com mar. Escarpas derramadas de um lado, montanha do outro. Em cada pequena praia que encontrávamos descíamos para um mergulho de água quente. Os olhos e a alma voam para lá de nós.



Dia 4. Uma das parias mais bonitas que já vi. A Scala dos Turcos. Azul e branca, como outro grande amor meu. Azul do mar e branco de uma falésia enorme de calcário. O contraste é tal que o sol queima por todo, do firmamento e da parede alva cheia de rugas calcárias. Dia de praia inesquecível.



De tarde fomos a Agrigento. Visitámos o parque arqueológico. Imaginar templos gregos e romanos com mais de 2000 anos e ainda de pé. Oliveiras com meio milénio de idade. O silêncio nessas pedras amareladas, o céu sempre azul até cair o sol. Sombras deitadas para lá da imaginação. Isto não são ruinas, o que eventualmente não está lá, lá está em espirito. As gentes de então descobriram o segredo das árvores e semearam-no nos templos, mesmo mortos, morrem de pé.



Dia 5. Saímos de Palermo em direção a Catania. Palermo, como disse, não é uma cidade fácil mas sempre surpreendia ao virar da esquina.


Catania, por seu lado, seduziu logo e foi o nosso poiso até ao fim das férias. Um mercado de peixe diário, efervescente todas as manhãs. E brindou-nos com uma chuvada tropical que não esqueceremos.


Dia 6. Visitámos Castelmola, pequena aldeia no alto duma falésia. Um nevoeiro pesado cobriu tudo durante a manhã. Com o passar da horas foi-se dissipando e quando descemos a Taormina só ao longe havia nuvens. Essas cobriam o monstro silencioso chamado Etna.



Dia 7. Fomos a Siracusa. Entrámos em Ortigia que é uma ilha (península agora) que estica a cidade pelo mar. Uma preciosidade. Um mercado típico do cruzamento de diferentes civilizações e culturas, praças e monumentos inundados de luz. Uns dos cenários que mais me deu prazer em beber uma cerveja.
De seguida o parque arqueológico e o seu teatro grego ainda perfeitamente desenhado contra a erosão dos anos.
À noite regresso a Catania onde jantámos na Tratoria Giglio Rosso onde comi uma das melhores refeições da minha vida, um spaghetti vongole perfeito. Explicar isto não é fácil. Enquanto que um cannoli, a tal sobremesa divina, sei que poderei repetir, aquele prato, naquele local, com aquele sabor, naquele sítio, naquele momento, é irrepetível (não há foto).



Dia 8. Fomos de manhã ver a Gola dell'Alcantara. Regressamos a Catania para almoçar, atacar um último cannoli e ver ao fundo da avenida Etnea uma montanha de nuvens a cobrir o vulcão ao qual subiríamos mais tarde.




 


Etna. O que é um vulcão? A voz do planeta que ocupamos. Das entranhas por vezes vem fogo e esse fogo amontoa-se em pedra negra e cresce até aos céus. Por sorte, subi a este.



Dia 9. Regresso, nova escala em Madrid com tempo ainda de visitar o museu Thyssen. Entre muitas obras ficou este Bacon. A mesma perplexidade com se olha o que da terra sai, um vulcão, este é um vulcão humano, enigmático, tortuoso, infinitamente belo.

 
Pedras Rubras, à saída do avião.

antecipar o desenho das nuvens

Quando começo a escrever o céu está azul quase por todo. Algumas nuvens deslizam devagar no alto. Uns quantos arquipélagos de algodão a revolver no firmamento. Antecipar-lhes o desenho certo no momento exato do fim da prosa é tarefa complicada, pois se agora parecem barcos, basta uma sílaba mais e em pássaros se transformam. E outras sílabas mais à frente em abstrações de árvores se desenham. A metamorfose das nuvens é mistério com segredo bem guardado. Recordo Herberto Hélder e o peixe que ia mudando de cor à medida que o artista o ia pintando. No fim, pintou o peixe de uma cor que ele ainda não tinha. Talvez neste céu, estas nuvens, no fim disto tudo, descansem com o teu desenho, o teu rosto de perfil, desvanecendo em azul e em ocaso.

a beleza absolutíssima

O portão em ferro com quatro letras: DAAF. Dona Antónia Adelaide Ferreira. Uma mulher ímpar na história do Douro e do país, como esta Quinta que dela foi e que eu já por 4 vezes tive a sorte de visitar e, desta vez o privilégio enorme de lá dormir.
 

A casa é como a paisagem, uma lenda, algo de inverosímil. Feita do próprio tecido do tempo.


A paisagem já a descreveram muitos. O melhor que sei é dizer que o mesmo deslumbramento se sente aqui como perante o mar, só que as ondas são de vinha e xisto em todo o redor e que o silêncio é tal que se faz ouvir.
 
 


Torga disse que o Douro era "a beleza absoluta", a Quinta do Vesúvio é a beleza absolutíssima.

A janela

 

Pelas traseiras entrava o mar, quer em luz infinita de verão quer em negrume de inverno com rajadas de chuva e vento.
Pela frente era um outro silêncio a roçar a porta. E no quarto de cima, o dos avós, a quietude era tal que apenas o tempo o parecia habitar. Havia uma sombra do lado de fora da janela. Uma árvore. Essa árvore foi sendo várias árvores ao longo dos anos, substituída à medida que as raízes se tornavam demasiado profundas. Dizem que minha avó chorava cada vez que a removiam para lá meter uma mais nova, mais franzina. Na rua havia uma garagem cuja moldura foi baliza de futebol durante gerações. E a árvore subia até à janela onde a avó espreitava quem passava.
Foi há séculos. Foi ontem. Será para sempre.

dos cadernos


O teu deserto é feito de um outro nada, de uma outra solidão. O teu silêncio é sopro de outra cor e tecido. A imensidão dos nossos corpos cobriria o mundo inteiro como um manto infinito de penumbra. O tempo inerte, incolor.

dos infinitos regressos

Esgotaste as desculpas e todos os adiamentos possíveis mas existem inevitabilidades agarradas às palavras. Escreves, portanto. E isto de escrever é mais forte que tu, é, como dizem os franceses, "malgré toi". E sendo assim estás isento de responsabilidades, de moral e de ética. Mesmo até, isento de estética. Literalmente. Ainda bem.

Calhou de lá passar um rio

Lá voltei, pela quarta vez em formação pela Symington, a sorte de ver de tão perto uma das maiores esculturas do mundo. Torga disse que era a "beleza absoluta" e bastou-me ir lá a primeira vez para o confirmar, mas para além da beleza há todo uma outra coisa que eleva o Douro a um milagre humano sem paralelo. Porque paisagens belas, deslumbrantes, existem em cada canto do nosso mundinho, mas o Douro é diferente. Está lá a paisagem sim, trabalho dos milénios da geologia, mas há uma outra coisa por em cima, algo mais recente no calendário cósmico, há todo um trabalho do Homem a desenhar esse vale, a plantar teimosamente vinha e a fazer dela a custo de sangue e suor, vinho. E pensar-se no caminho percorrido nos últimos séculos, no avanço tecnológico aliado há mais nobre das tradições de viticultura e vinificação, na produção pelas mãos mais humildes das gentes durienses de vinhos bebidos em palácios reais e em restaurantes de luxo por esse mundo fora, perante tudo isso me deslumbro de cada vez que lá vou. Disse-o alguém: o Douro são pessoas, trabalho, xisto, vinha e vinho, calhou de lá passar um rio com o mesmo nome.
 

O vento diz coisas

O vento diz coisas. Talvez não saibamos bem quais mas diz. E o mar, estes dias, veio confirmá-lo. Cada onda estendida para lá da praia até à estrada, será uma forma do vento falar. E as árvores nuas, tombadas ou de pé, uma outra forma. E o rodopiar das folhas soltas nos jardins uma mais. As coisas que dirá vêm de longe, de um outro tempo, e mesmo que repetidas são sempre novas. Há nas tempestades uma rebeldia que nos assusta, um estremecimento do mundo que abala também por dentro e ficamos sem saber se foi em nós que se iniciou ou se apenas servimos de eco, de caixa de ressonância.
O vento diz coisas, basta ser-se surdo para ouvir.

como quem ama

o primeiro passo será perceberes que não são tuas
as palavras
são furtivas, sedutoras, esquivas
que se insinuam, que se oferecem e desoferecem facilmente
que como quando se olha o sol menos se vê
quanto mais as agarramos mais se nos fogem

o segundo passo terá forçosamente de ser o da humildade, da rendição
mesmo se a grande a lição que as palavras te dão
são a da liberdade, da tenecidade, do inconformismo

no fundo, há que mergulhar num mundo de antonímia
de conviver com o paradoxo

como quem ama.

liberdade, igualdade, fraternidade

da alma para Paris

queres ser fraterno
poder comungar com o próximo ou com alguém mais distante mas que te calhou no caminho
sabê-lo a ele e dares-te a provar também,
 
queres ser igual
para poderes ser diferente, aceitar, compreender, crescer
colher sapiência e paz no lento caminhar para longe da ignorância,
 
queres ser livre
estar em silêncio ou em uníssono na sinfonia caótica que todos somos
 
queres essa trindade
pensavas que lá por ta terem dado, tua seria sempre
 
mas ser livre, igual e fraterno exige de ti um outro triunvirato:
a defesa intransigente da tolerância, educação e dignidade.

constatação

Não duvides de que chegou o momento. E os momentos, é sabido, escapam-se dentro deles mesmos, desmoronam-se como as estrelas já cansadas de eternidade. As palavras, aquelas que te couberam dizer, anseiam por esse pulsar efémero de se revelarem, condensam em si um arrepio vindo de não se sabe bem de onde.

curvas e regaços

Tinhas estas palavras guardadas há muito tempo. Guardadas naqueles sacos de plástico onde sempre puseste as palavras que escrevias em papel, no tempo em que escrevias em papel, agora escreves por dentro, no escuro de ti, no silêncio mais profundo, no silêncio do silêncio. Tinhas, como disse, estas palavras guardadas há muito:
 
a sala adormecia nos finais de tarde, deixando pequenos rumores escondidos nos cantos. apenas a tua sombra vibrava pelas paredes, desenhando curvas e regaços.