dia 211 - pensou e sentiu

tarde
ou pelo menos mais tarde
pensou e sentiu
que são duas línguas diferentes e que muitas vezes não coincidem

mas um atraso ou um adiamento não impendem um agora
um instante preciso que pela sua própria natureza
tanto é fixo como difuso
vivendo num estado entre estados
como uma indefinição entre um sólido e um líquido ou um líquido e um gás

mas tarde ou mais tarde são estados de alma
remanescem apenas numa relação com alguém ou alguma coisa

não existe tempo nem sítio sem uma intimidade
os desertos são para sempre e desde sempre
os assombros não moram em lugar algum e encontram-se por todo o lado

pensou e sentiu estas coisas
enquanto procurava recuperar o que na verdade nem sequer havia perdido
em esforço
os pulmões em busca de um fôlego esquecido
e o corpo esticado como que a aflorar o futuro
ia nesse engano tentando um impossível

mas há uma beleza nas inviabilidades
existe por dentro das carcaças das gentes
bem fundo e por baixo das cinzas do nosso fogo essencial
uma rebeldia indomável
um bicho que acorda precisamente face aos nãos perentórios
como se um dogma fosse uma adaga a espicaçar

e então
ferido
soltam-se os uivos tresloucados dos que nunca desistem e nunca se calam
e mesmo quando derrotados
olham para o lado
cospem o sangue da porrada que levaram
e voltam a levantar-se
doridos abatidos perdidos
mas nunca
em circunstância alguma
rendidos

mas viajámos para longe neste devaneio
ele pensava e sentia
e nesse dueto de verbos
o tarde fez-se ainda mais tarde

quando deu por ele
o amanhã era quase uma véspera
o depois uma inexistência

pensou
sentiu
e foi só


"Autorretrato com Olho Enucleado" (1931) de Victor Brauner, Centre Georges Pompidou, Paris, França, dezembro de 2024

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