dia 186 - meta

não via o caminho que o levava até lá
mas o fim revelava-se nítido durante toda a jornada

enquanto ia um nevoeiro denso e ardiloso teimava a cada passo
mas guiava-se por um instinto que herdara sem saber de quem

e não era só o espaço que estava encoberto
o próprio tempo divagava por entre a cadência que o ritmava
ora veloz no passar dos dias e noites
ora lento e pesado nas madrugadas que pareciam nunca acabar

o itinerário era assim um mistério no tecido da realidade
mas a meta
qual farol imóvel
raiava desde o início

no entanto
até lá chegar
havia que atravessar esse enigma
essa vasta indecisão que insistia em não largá-lo
como se raízes invisíveis de um obstáculo o tentassem prender ao chão
agrilhoando-lhe o alento num esforço obstinado

mas também ele carregava um afincamento
e ao longe o destino imaculado enchia-o de uma vontade imparável

mesmo se a custo
foi avançando passo a passo
soltando-se das amarras que iam aparecendo
movendo-se contra a força de uma gravidade exagerada
e então
nada mais o impediu de lá chegar e de despejar a alma há muito presa no silêncio

perante os deuses que o viram aproximar incrédulos
uivou até a lua se esgotar no céu
cerrou os punhos quase até ao sangue
bateu no peito como se fosse um tambor a anunciar o fim de um tormento
inspirou o ar por inteiro e expeliu-o no maior dos suspiros

quando por fim lhe perguntaram o que sentia agora que chegara
ele olhou-os nos olhos e disse

sinto que subi ao cimo das emoções para melhor ver o mundo


Ilha do Pico, Açores, outubro de 2020

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