alongou-se na explanação com detalhes precisos e outros nem tanto
desculpou-se pelas aparentes contradições mas pediu que acreditassem mais na intenção do que no resultado
que a arte não era uma opinião
e se fosse
teria de ser a do artista
sobretudo se o artista fosse ele
os muitos admiradores que tinha
bebiam-lhe as palavras com uma sede surreal
suspiravam e quase batiam palmas a cada pausa entre as palavras que iam ouvindo
outros
curiosos que se juntaram à volta
perguntavam pelas obras
queriam ver para crer
mas nesse dia só ele viera
a criação era ele e o que tinha para afirmar
falava de uma forma quase aborrecida
como se partilhasse evidências e redundâncias
passava uma imagem entre a arrogância e o agastamento
parecia com pressa ao mesmo tempo que parecia não querer ir embora
hesitava entre deixar-se ser adulado e ignorado
vivia essa esquizofrenia de cada vez que esperava por uma pergunta mais
e já perto do fim
quando nenhuma questão surgia
ele mesmo se interpelava e prosseguia num monólogo sem fim
citou outros que considerava mestres
uns conhecidos outros muito provavelmente inventados
e um deles
desses imaginários
em particular
agradou-me bastante pela honestidade que revelava
agora
que já se passaram anos desde esse encontro
neste preciso instante em que recordo o episódio
as palavras aludidas diziam
nada detenho e a nada pertenço
isso é feito de silêncio
então
não há como não me calar
curiosamente
nem eu nem o artista seguimos o exemplo
ele alongou a palestra por horas
e eu
aqui
tanto tempo depois
ainda agarrado ao que dizer
como um vício que se finca no âmago e lavra num fervor insaciável
por vezes
nos momentos de maior dependência
até parece que não inventaram palavras suficientes
e cai em mim uma vertigem que sidera
pois nada detenho e a nada pertenço
mas ainda assim
não me calo
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