dia 208 - loucura

apesar de tudo ter uma hora certa
ele não conseguia prever nada
porque na certeza de que alguma coisa aconteceria a um dado momento
pairava sempre
a possibilidade de não acontecer coisa nenhuma
ou até
acontecer uma coisa inesperada

não era fácil de explicar
ele tentava
a cada encontro com o médico
procurava palavras diferentes
procurava argumentos para desconstruir o diagnóstico

mas do outro lado
por trás dos óculos da bata e do caderno
não parecia haver porto seguro para que o que dizia pudesse atracar

ser louco tinha as suas impossibilidades
e deixar de o ser era uma delas pelos vistos

no ciclo da medicação
reconhecia pequenos momentos em que ainda conseguia sonhar
mas eram escassos
muitas vezes interrompidos por insónias intermináveis
e era então que as madrugadas pareciam não ter fim
o quarto mingava até ao sufoco que o corpo combatia até ao esgotamento

quando a manhã chegava
já não sobrava alento
e tal como eles queriam
lá ia ele com a corrente do dia
dócil e amestrado

mas foi então que teve uma ideia
que os iria ignorar
que se esconderia num alheamento para lá dele e de tudo

talvez assim o deixassem em paz
se deixasse de ser
não haveria colarinho por onde agarrá-lo
não existiram veias onde enterrar agulhas
ou se as houvesse
podia ser que o coração não bombeasse sangue algum de tão distraído estar

ou se calhar tudo isto era em vão
não o sabia

era este vai e vem entre o desespero e a esperança que o guiavam
um carrossel ora a tornear ora parado em silêncio

os anos passaram
e quando teve alta e lhe abriram a porta para o mundo
decidiu ficar
pediu-lhes uma noite mais metido no colete de forças

que tinha ainda um pedaço de loucura para queimar

recusaram

mas ao despedir-se do louco mais antigo do asilo
ouviu-o dizer com um sorriso com um sorriso no rosto

esse pedaço que dizes ainda teres
leva-o
e incendia o mundo


Sigmund Freud por Salvador Dalí em 1938, Leopold Museum, Viena, Áustria, abril de 2022

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