com os olhos fechados e de costas para o mar
numa voz limpa e profunda
não sejas
sê nada
como se viesses do silêncio
até porque é mesmo de lá que vens
depois esperava que a maré fosse enchendo
haveria de chegar um resto de onda para lhe molhar os calcanhares
era então que regressava a casa
e no deserto da praia ficávamos nós a tentar entender
não só as palavras mas também aquela espera
o ritual repetia-se ao longo do verão
ela chegava sempre antes de todos
como se soubesse de cor os instantes secretos onde podia surgir sem ser vista
imbuía-se de aparição
manifestando-se súbita como uma miragem junto à orla
aos poucos juntavam-se os curiosos os desconfiados e cada vez mais os rendidos
cada um com os preconceitos no colo e no espírito
cheios de certezas ou dúvidas
que na grande parte das vezes são uma e mesma coisa
ela moldava a demora
o tempo era areia e água nas mãos
forjava a expectativa com largos gestos que desenhavam sob o pano do firmamento
contornos cujo simbolismo era indecifrável mas definitivo
e era isso que cativava aquela gente
de que ali
mesmo em frente
algo acontecia de verdade
que mesmo não sabendo bem o quê
era irrefutável e desmanchava o tecido da rotina até nada sobrar
nunca
até ao dia em que ela chegara
concebiam ser possível testemunhar o milagre do desconhecido
eu lá estava no meio
obcecado em descodificar aquela dança e palavras
a sondar o aguardo pela onda que em esforço lhe chegaria aos pés
cheguei mesmo a tentar segui-la quando se retirava
só para dar comigo perdido ao fim de umas quantas esquinas dobradas
quando o verão terminou e ela deixou de aparecer
fomos todos
cada um a seu ritmo
entendendo aquelas aparições e aquelas palavras
e com o tempo e os dias a ficarem mais curtos
o silêncio finalmente
fez sentido
e não era incomum
que quem em frente à praia passasse
visse uns quantos de costas para o mar
à espera de uma onda que se esticasse em esforço
até lhes lamber a alma
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