dia 185 - longe

parecia que o lugar de onde fora embora há uns anos
é que o deixava cada vez mais para trás

como se na distância o que se afastava era a origem e não o destino

indo ele para longe
era o longe que se escapava e que ia mingando num afunilamento perpétuo

um dia
depois de tanto mirrar sob o fundo do tempo
o longe passaria a ser um pequeno ponto quase imperceptível

nesse exílio cuja lonjura se distendia
a memória também se derramava pelas bordas do esquecimento
e aos poucos
ia ficando órfão de um passado e quase sem prova de que facto existia

restava-lhe uma sombra e um eco a dizer-lhe de onde vinha
mas até esses dizeres se tornavam mais difíceis de entender
e chegavam a assustar quando os sons não faziam sentido
como se falassem outra coisa que uma língua

pela frente
o desterro era agora tudo o que podia conhecer
sem mapa e sem norte
a rota
era na verdade
um ir à deriva

e ele
sem sequer a lembrança de ter nascido
lá ia indo
qual náufrago à espera de dar à costa

talvez o resgatassem no último instante
talvez um outro lugar o adotasse

se assim fosse
o ciclo poderia repetir-se
e quando ele voltasse a evadir-se
e a distância e o longe o deserdassem uma vez mais nessa fuga inescapável
o poema
enfim
lograria calar-se


Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, dezembro de 2016

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