que me chegam por relatos improváveis
não sei se são verdadeiras
mas com certeza em parte terão acontecido
ou
quando muito
acontecerão
porque as palavras têm esse dom
de engendrar realidade
de meter mais mundo no mundo
e pelo simples ato de se pronunciarem
forjam-se em eternidade
ouvi contos de uma família inteira a partilhar uma cama
onde o mais velho declamava poemas para enganar a fome
e se é certo que essa era uma guerra impossível de ganhar
a luta valia por si só e chegava a salvar pelo menos alguns deles
até porque a narrativa viajou até aqui
outros episódios revelaram-se ao longo do tempo
piratas que escondiam os saques em esconderijos tão secretos que até hoje ninguém descobriu
outros ainda
falavam de mineiros que regressavam das entranhas da terra com a pele coberta de noite
como se a madrugada os tivesse engolido de vez
tantas e tantas que chego a confundir o que de facto ouvi com o que inconscientemente vou eu próprio inventando
não se doma o que é dito ou escrito
e ainda menos se doma a leitura
esse bicho selvagem que dispara num galope desenfreado pelas planícies que se estendem por dentro da alma
ler é um abismo
enquanto que escrever é a escalada desse mesmo abismo
parece contraditório mas não é
a leitura vem antes
sim
antes
ela é um ditado anterior à escultura
ela é o contorno do molde que eventualmente nasce em grafia
e quantos desses moldes não se despedaçam
porque a queda nesse despenhadeiro é feita de encostas e mais encostas até ao infinito
e nelas se esbardalham os versos e as frases uma e outra vez até se extinguirem em silêncio muitas delas
eu vou estando por aqui
como muitos
como todos na verdade
a ouvir essas vozes irreconhecíveis que teimamos em perseguir
ou que nos perseguem a nós
que nos impelem a testemunhar esse excesso que brota de um impossível
de onde vem tudo isso
se é que vem de algum lugar
se calhar
o assombro está em não vir de lado nenhum
de fulminar do nada e ao tudo se somar
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