dia 189 - desinspirado

perante o desafio
ele pôs-se a enunciar o que antevia
talvez na procura de colocar alguma ordem num caos que doutra forma seria insuperável

então nessa tentativa de arranjo
lançou-se numa verborreia que acabou por desarrumar ainda mais o cenário

disse coisas como 

quando suficientes dias de verão se acumulam
à noite dormem os rostos engolidos pelo sol

e continuou 

samurais feridos a colherem flores sem cheiro enquanto sangram rodeados dos cadáveres que eles mesmos semearam

ou ainda

se já chegámos
não vale a pena ter pressa

e assim sucessivamente
numa manta de retalhos que parecia não acabar
e à qual ele se agarrava como um animal selvagem

o desespero de não conseguir ligar essas coisas coerentemente
faziam-no exasperar-se ainda mais
cavando um buraco a cada tirada maior onde o céu ia mingando sem retorno

e de tanto proferir
o que dizia começava a esvaziar-se
o âmago do que revelava parecia evaporar-se mal o primeiro som era emitido
perdendo-se no éter como aquelas neblinas que o final da manhã varre de uma vez

era como se as palavras perdessem os próprios significados
e sobrassem só as carcaças fonéticas
amontoados onomatopeicos dissonantes
impróprios para consumo
sobras de um corpo já sem alma
despojos

testemunhar esse definhar era assistir a um espírito a vazar
um derrame de humanidade até a um desvanecer final

quando acabou
e tentou recompor-se
eu estendi-lhe a mão
ele olhou-me e disse

obrigado
mas não é de ajuda que eu preciso
é de inspiração


"Die Macht zu Lande" de Edmund von Hellmer, Viena, Áustria, abril de 2022

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