perante o desafio
ele pôs-se a enunciar o que antevia
talvez na procura de colocar alguma ordem num caos que doutra forma seria insuperável
então nessa tentativa de arranjo
lançou-se numa verborreia que acabou por desarrumar ainda mais o cenário
disse coisas como
quando suficientes dias de verão se acumulam
à noite dormem os rostos engolidos pelo sol
e continuou
samurais feridos a colherem flores sem cheiro enquanto sangram rodeados dos cadáveres que eles mesmos semearam
ou ainda
não vale a pena ter pressa
e assim sucessivamente
numa manta de retalhos que parecia não acabar
e à qual ele se agarrava como um animal selvagem
o desespero de não conseguir ligar essas coisas coerentemente
faziam-no exasperar-se ainda mais
cavando um buraco a cada tirada maior onde o céu ia mingando sem retorno
e de tanto proferir
o que dizia começava a esvaziar-se
o âmago do que revelava parecia evaporar-se mal o primeiro som era emitido
perdendo-se no éter como aquelas neblinas que o final da manhã varre de uma vez
era como se as palavras perdessem os próprios significados
e sobrassem só as carcaças fonéticas
amontoados onomatopeicos dissonantes
impróprios para consumo
sobras de um corpo já sem alma
despojos
testemunhar esse definhar era assistir a um espírito a vazar
um derrame de humanidade até a um desvanecer final
quando acabou
e tentou recompor-se
eu estendi-lhe a mão
ele olhou-me e disse
obrigado
mas não é de ajuda que eu preciso
é de inspiração
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