assim pensava
assim declarava por dentro
tentando apagar o incómodo
ela entendia
mas reforçava que se sentia só
que havia um deserto entre o mundo e o que lhe ia na alma
chegava até
a sentir que se abandonava a si mesma
que esse exílio dava uma volta para lá do possível
desaguando num lugar onde
para além de não haver ninguém
não sobrava sequer ela própria
ele estremecia ao ouvir estas coisas
recusava acreditar
num impulso primário que não conseguia conter
e cujo sabor amargo de arrependimento se revelava de imediato
odiava ser cruel
tinha vergonha desses instantes
mas não podia suster esses repentes
eles vinham a cavalgar de um antes
como um espirro emocional
ou um espasmo
ela insistia numa tristeza
numa insatisfação que ele não compreendia
para ele
o mundo era simples
era um caminho que aliás
devia levar à gratidão e não a queixumes
era assim entre eles
por momentos crescia uma distância que a ele o derrubava mas que a ela não importava
não se explicavam nessas alturas
o que um falava reverberava em estrangeiro em desconhecido em irreconhecível
mas então chegava a noite
e a cama
e o calor dos corpos
e um despenhar de luxúria que tudo queimava
e assim foi
dia após dia de erosão
noite após noite de fogo
até que o escalpe de ambas as almas
ficou para trás
num passado de terra ardida
remoendo palavras ditas e outras por dizer
nunca mais se viram
nunca mais se esqueceram
cada um foi bebendo a memória
até a própria sede se saciar
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