dia 210 - escalpe

a solidão dela não era responsabilidade dele
assim pensava
assim declarava por dentro
tentando apagar o incómodo

ela entendia
mas reforçava que se sentia só
que havia um deserto entre o mundo e o que lhe ia na alma
chegava até
a sentir que se abandonava a si mesma
que esse exílio dava uma volta para lá do possível
desaguando num lugar onde
para além de não haver ninguém
não sobrava sequer ela própria

ele estremecia ao ouvir estas coisas
recusava acreditar
num impulso primário que não conseguia conter
e cujo sabor amargo de arrependimento se revelava de imediato

odiava ser cruel
tinha vergonha desses instantes
mas não podia suster esses repentes
eles vinham a cavalgar de um antes
como um espirro emocional
ou um espasmo

ela insistia numa tristeza
numa insatisfação que ele não compreendia
para ele
o mundo era simples
era um caminho que aliás
devia levar à gratidão e não a queixumes

era assim entre eles
por momentos crescia uma distância que a ele o derrubava mas que a ela não importava

não se explicavam nessas alturas
o que um falava reverberava em estrangeiro em desconhecido em irreconhecível

mas então chegava a noite
e a cama
e o calor dos corpos
e um despenhar de luxúria que tudo queimava 

e assim foi
dia após dia de erosão
noite após noite de fogo
até que o escalpe de ambas as almas
ficou para trás
num passado de terra ardida
remoendo palavras ditas e outras por dizer

nunca mais se viram
nunca mais se esqueceram

cada um foi bebendo a memória
até a própria sede se saciar


Ong Jemel, Deserto do Saara, Tunísia, agosto de 2017

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