dia 190 - concha de pele

tentou agarrar a última luz do dia
colhê-la entre as mãos numa concha feita de pele
e ao fazê-lo
ela foi mirrando em sombra pelas bordas das palmas
até se esvair pela fenda inevitável no fulcro entre os dois dedos mindinhos

sobre a mesa alguns livros antigos
foi buscá-los ao lugar de silêncio onde estavam desde a última leitura muitas delas décadas atrás
procurou escolher um para reler num suposto futuro próximo
quem sabe no verão que está à porta
nas férias do costume
mas lembrou-se dos muitos que caíram nesse embuste
nessas (re)leituras que nunca aconteceram
ou porque o sol era excessivo
ou a preguiça exagerada
ou o mar demasiado molhado de luxúria
ou as ressacas impeditivas
ou uma inesperada recusa da nostalgia

enfim
inúmeras razões que seguramente o esperavam de novo mais à frente
quais armadilhas a aguardar presas óbvias

mas lá foi tentando escolher
e encontrou dedicatórias que tinha esquecido
folhas secas a fazerem de marcador
rótulos de cerveja com igual tarefa
postais de destinos passados
e até uma fotografia de uma paisagem desfocada cuja resolução tinha sido engolida pelo sol

reencontrou também
enquanto folheava de lampejo
frases que de repente relembrava
histórias que tinha largado na deslembrança
personagens que o assombraram no passado
no bom e no mau sentido

e esse pequeno atordoamento
fê-lo segurar-se à cadeira mais próxima
recuperando um equilíbrio que por instantes tinha escapado

a tal luz que por momentos afagara entre as mãos
regressava transmutada numa leve onda de calor que lhe subia pelos braços até aos ombros
abraçando-o como uma manta invisível
como se até tivesse ganho asas e que recolhidas sobre as costas o cobriam agora

pensou em desdobrá-las e lançar-se pelo céu
ser um ícaro
mas triunfante
chegar mesmo ao sol e beijá-lo com a língua da alma
mergulhar na fornalha derradeira para sair do outro lado reforjado à imagem de um mito

quem podia imaginar
que este devaneio começou com uma simples concha feita com as mãos
e a revelação da tal brecha entre os mindinhos que é inselável

foi por lá que afinal
tudo isto se verteu


Foz do Douro, Porto, dezembro 2016

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