dia 196 - viúva

quando me falaram dele
disseram que tinha morrido jovem
mas que sonhara até aos cem anos

eu
que nunca o tinha conhecido
senti-me desde logo atraída por ele

fiz-me viúva na hora
de um homem de quem nem cheguei a saber o nome nem conhecer o corpo

perdi-me nessa ideia de se sonhar sem fim
de queimar a vida
de conseguir passar pelas cinzas e fumo e alcançar um lugar onde o tempo não fala

não sei se sou gente
se sou igual aos que vejo à minha volta
nem sei se sou igual a mim quando calha de me cruzar com um espelho
há algo de loucura nos olhos que me fitam de volta
não os reconheço e duvido que sejam assim os que carrego comigo

não sei
estas coisas nunca se sabem
talvez no último dia se descubra
quando não houver um amanhã à espera
pode ser que aí
nesse derradeiro minuto estas coisas se saibam

até lá vou ignorando
ou sendo ignorada
por mim
por todos
pouco importa agora que me apaixonei por alguém que já morreu
que faleceu novo mas que devaneou um século

pergunto-me se o rosto cavou-se de rugas ainda assim
se o cabelo gritou de grisalho e se os ossos doíam quando acordava de manhã

ou se sonhar não nos corrói a carcaça

se calhar envelheceu-lhe a alma
não que seja pouco
poderá tê-la tornada calejada nesse lapso de tempo invisível
quem sabe

já cá não está
fiquei eu para o lembrar na minha total falta e épica de memória

quem dele me falou não soube dizer muito mais
sobrou-me por isso coisa parca
mas num luto
é sabido
cabe o amor e o desgosto


Judite e a Cabeça de Holofernes de Gustav Klimt, Museu Belvedere, Viena, Áustria, abril de 2022

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