como todas as coisas que acabam por ecoar ao longo do tempo
lembro-me dela se ajoelhar no chão de gravilha até sangrar
e olhar o sol de frente à espera que os olhos queimassem de vez
era esta imagem que o quadro mostrava ao mundo
a galeria cheia de gente a ver
uns a comentarem
outros calados
e outros ainda distraídos
o artista meio escondido no meio da multidão
sorvia as reações
procurava entender o que a obra provocava
longe de imaginar que por cima
num exercício criativo distinto
um poeta ia escrevendo versos sobre tudo aquilo
mas também o poeta ignorava
que noutra camada ainda superior
era uma leitura que se sobrepunha ao que no fim só poderia ser apelidado de embuste
mas regressemos ao início
à criatura que sangra dos joelhos e que condena a vista sob o sol calcinante
ela não existe de verdade nem a tela que foi descrita
e se descemos mais pelas escadas do cenário imaginado
reencontramos a exposição e um público sem rosto nem biografia
no meio do qual um suposto pintor passeia em busca de emoções
e quando ousamos descer ainda mais
e aflorar o cerne das palavras
quase ouvimos o deslizar da caneta do poeta pelo papel de um caderno mais
esse suspiro a resvalar no silêncio de um quarto no hemisfério contrário ao habitual
mas mais abaixo ainda
se tivermos a sorte de estagnar em quietude
ocorre o milagre de se conseguir ouvir
a leitura de quem isto lê
as vozes de uns quantos a murmurar para lá do silêncio anterior
e que na verdade
se virmos bem as coisas
se nos despirmos de ego
se abandonarmos os sonhos
se tivermos coragem
se aceitarmos o lento correr do tempo
essas vozes de uns quantos
dizia eu
são simplesmente fruto do primeiro verso deste poema
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