*designação para o xeque-mate mais rápido possível no xadrez
a um canto
com o tabuleiro sobre a mesa
o mestre bebia o café mais demorado de sempre
as peças alinhadas
brancas do lado sem jogador
pretas em dupla sombra
as delas mesmas e as do mestre sobre elas debruçado de chávena na mão
entretanto entrara um homem com os olhos em fogo
chegou-se
tossiu e sem esperar reação sentou-se no lugar vazio e moveu um peão
uma casa
avançando
pousada a chávena
respondeu o perito
também com um peão subindo duas casas
o homem não demorou
e embora não dominasse o jogo
sabia que era a vez dele
e
decidido
avançou um segundo peão
desta vez as duas casas permitidas
perderia no lance seguinte
perante o sorriso de desdém desenhado no rosto do mestre
condenado que ficava o rei alvo com o avanço em diagonal da dama de luto
a isto o homem de olhar incendiado respondeu
caro mestre
parabéns
mas a minha estratégia não era para salvar um rei que nem conheço
foi para salvar o resto da malta
os bispos os cavalos as torres e sobretudo os peões
e ei-los todos
no tabuleiro
a salvo
quer do exército inimigo quer de um qualquer monarca escondido
o mestre deixou cair o sorriso
que não era bem assim
explicou que todos estavam condenados já que o rei morrera
mas à medida que argumentava
que enunciava a tradição e o espírito das leis do xadrez
deu com ele mesmo a entender
que deposto o rei o jogo acaba
e no instante inerte do xeque-mate
o tempo fixa-se
estagna-se na realidade inamovível
apercebeu-se então que era verdade
que todos se salvavam
os do adversário e os dele também
libertos por fim
eternos
morria um rei sim
mas para que serve um soberano
se não para um sacrifício
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