dia 209 - mate do louco*

*designação para o xeque-mate mais rápido possível no xadrez

a um canto
com o tabuleiro sobre a mesa
o mestre bebia o café mais demorado de sempre

as peças alinhadas
brancas do lado sem jogador
pretas em dupla sombra
as delas mesmas e as do mestre sobre elas debruçado de chávena na mão

entretanto entrara um homem com os olhos em fogo
chegou-se
tossiu e sem esperar reação sentou-se no lugar vazio e moveu um peão
uma casa
avançando

pousada a chávena
respondeu o perito
também com um peão subindo duas casas

o homem não demorou
e embora não dominasse o jogo
sabia que era a vez dele
e
decidido
avançou um segundo peão
desta vez as duas casas permitidas

perderia no lance seguinte
perante o sorriso de desdém desenhado no rosto do mestre 
condenado que ficava o rei alvo com o avanço em diagonal da dama de luto

a isto o homem de olhar incendiado respondeu

caro mestre
parabéns
mas a minha estratégia não era para salvar um rei que nem conheço
foi para salvar o resto da malta
os bispos os cavalos as torres e sobretudo os peões
e ei-los todos
no tabuleiro
a salvo
quer do exército inimigo quer de um qualquer monarca escondido

o mestre deixou cair o sorriso
que não era bem assim
explicou que todos estavam condenados já que o rei morrera

mas à medida que argumentava
que enunciava a tradição e o espírito das leis do xadrez
deu com ele mesmo a entender
que deposto o rei o jogo acaba
e no instante inerte do xeque-mate
o tempo fixa-se
estagna-se na realidade inamovível

apercebeu-se então que era verdade
que todos se salvavam
os do adversário e os dele também
libertos por fim
eternos

morria um rei sim
mas para que serve um soberano
se não para um sacrifício


Escultura de Maria Leal da Costa, Quinta do Barrieiro, Marvão, agosto de 2020

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