dia 202 - sobeja

num coro de lamentações
ele foi avançado como pôde

o mundo revelava-se colérico
queixava-se de uma injustiça qualquer
exigia o pagamento de uma dívida cuja origem era dúbia

provavelmente
esse mundo
tinha perdido alguns milagres pelo caminho
e agora
face a uma fome inesperada
lança-se em lamúrias arrastando-o a ele

logo ele
que sempre viveu em gratidão
que nunca se queixou
que conseguia navegar em calma quando os outros se lançavam borda fora

via-se no meio dessa tempestade de raiva
à deriva numa revolta que não tinha onde se agarrar e por isso era caótica

todos a salivar sem saberem onde morder
ou então a morder em tudo o que mexia
como se a gula num repente ardesse em anarquia

ele foi indo
tentando contornar essa demência
esquivando-se aos confrontos e torneando ao redor de um ódio que não entendia

porque depois de uma comoção destas
ele sabia o que iria sobrar
não haveria como escapar
deserto e mais deserto

restava-lhe porém uma esperança

de que nem toda a decadência é sinal do fim
até o bolor num pedaço de pão esquecido é indício de vida
e com certeza
à escala que lhe é devida
emana algum calor
um afago de que mesmo perante a destruição
algo sobeja sempre


Templo de Castor e Pólux na Valle dei Templi, Agrigento, Itália, agosto de 2016

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