dia 200 - desperado

quando regressava a casa a meio da madrugada
os gatos de rua miavam e bufavam por entre os caixotes de lixo caídos

em breve
no silêncio do quarto
a almofada iria abafar os gritos que tinha guardado durante o dia

não valia a pena falar com o reflexo do espelho por cima do lavatório
nem sentar-se no sofá velho da sala
era a cama que queria e asfixiar os berros que trazia dentro

tinha memórias para desfazer antes de conseguir dormir

era assim há muito tempo
desde que ficara sozinho

já que ninguém estava por perto
havia que abraçar a solidão por inteiro
e convocar deslembrança era parte do plano

a outra parte tinha que ver com uma rotina caótica
acordar quando tivesse de ser
comer quando fosse indispensável
e chorar sempre que possível

esta última revelava-se cada vez mais escassa
sem recordações as lágrimas não vinham
e por vezes
quando se dava conta que estava entre soluços
desesperava por não saber a razão

como se a tristeza o convocara sem aviso e sem chão onde se suster

então saía para a noite
caminhava até as pernas doerem e sentir de novo um desespero a crescer em volta

ia engolindo em seco
acumulando no íntimo ulos e bramidos
apinhando-os até quase transbordarem pela boca

em casa despejava-os então
amarfanhando a almofada com as mãos e o rosto enfiado até não haver mais espaço entre os dentes e o tecido
um açaime de desalento a rasgar a alma mas a poupar os vizinhos

qualquer dia
por lapso ou por insânia
há de colocar a almofada de lado
e à janela a plenos pulmões há de gritar até a voz finar

quem sabe se nesse instante
o sol chegue mais cedo do que o previsto
como se o globo inteiro galgasse o próprio tempo
e num repente acordasse em sobressalto


Palermo, Sicília, agosto de 2016

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