há muito tempo
numa gaveta que ficou por abrir
um pedaço de esquecimento
naquela altura
tinha por hábito encher os bolsos de versos que ia rabiscando nos intervalos possíveis
ao fim do dia espalhava esses rascunhos pelo chão do quarto
e um a um
lia-os em voz alta na solidão adolescente
passava a limpo os que sobreviviam e condenava outros a um fogo clandestino no jardim
mas às vezes
uns remanesciam
eram os que não mereciam nem viver nem morrer
e ao emanarem essa natureza incerta e precária
acabavam por atormentá-lo ao ponto de durante meses deixar de escrever
voltava a lê-los
ameaçava-os de novo com as chamas
chegava até a passá-los a limpo a ver se se agarravam a um renascer
mas desistia rapidamente
e depois de eliminar as provas dessas indecisões
sobravam uma vez mais espalhados pelo quarto
esses papéis e guardanapos amarrotados sem destino à vista
tomou a decisão de os guardar então
mas ao mesmo tempo preparou-se para os esquecer
teceu uma amnésia como quem lava as mãos de uma responsabilidade
fê-lo de olhos fechados no momento que os atirou para a gaveta
deslizou-a devagar até ao abafo derradeiro do fechamento
e nesse preciso momento em que o suspiro da madeira exalou
mergulhou em deslembrança
hoje
ao reencontrá-los
não os reconheceu
farejou as palavras estranhas com uma mistura de curiosidade e cuidado
havia vários
e à medida que os desenterrava
foi descartando-os um a um
preparando uma fogueira para os calar de vez
provavelmente
o tempo fez com que agora estivessem prontos para expiar
quando chegou ao último hesitou
havia ali
naqueles versos finais pálidos e de caligrafia duvidosa
uma réstia de esperança
uma forma de resiliência que só a poesia é capaz
leu-os uma última vez
depois nunca se chegou a saber se arderam se se reescreveram ou se voltaram à gaveta
diziam
o que é a poesia
senão o silêncio que se diz
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