dia 193 - remanescente

tinha guardado 
há muito tempo
numa gaveta que ficou por abrir
um pedaço de esquecimento

naquela altura
tinha por hábito encher os bolsos de versos que ia rabiscando nos intervalos possíveis

ao fim do dia espalhava esses rascunhos pelo chão do quarto
e um a um
lia-os em voz alta na solidão adolescente
passava a limpo os que sobreviviam e condenava outros a um fogo clandestino no jardim

mas às vezes
uns remanesciam
eram os que não mereciam nem viver nem morrer
e ao emanarem essa natureza incerta e precária
acabavam por atormentá-lo ao ponto de durante meses deixar de escrever

voltava a lê-los
ameaçava-os de novo com as chamas
chegava até a passá-los a limpo a ver se se agarravam a um renascer
mas desistia rapidamente 
e depois de eliminar as provas dessas indecisões
sobravam uma vez mais espalhados pelo quarto
esses papéis e guardanapos amarrotados sem destino à vista

tomou a decisão de os guardar então
mas ao mesmo tempo preparou-se para os esquecer

teceu uma amnésia como quem lava as mãos de uma responsabilidade
fê-lo de olhos fechados no momento que os atirou para a gaveta
deslizou-a devagar até ao abafo derradeiro do fechamento
e nesse preciso momento em que o suspiro da madeira exalou
mergulhou em deslembrança

hoje
ao reencontrá-los
não os reconheceu
farejou as palavras estranhas com uma mistura de curiosidade e cuidado

havia vários
e à medida que os desenterrava
foi descartando-os um a um
preparando uma fogueira para os calar de vez

provavelmente
o tempo fez com que agora estivessem prontos para expiar

quando chegou ao último hesitou
havia ali
naqueles versos finais pálidos e de caligrafia duvidosa
uma réstia de esperança
uma forma de resiliência que só a poesia é capaz

leu-os uma última vez
depois nunca se chegou a saber se arderam se se reescreveram ou se voltaram à gaveta
diziam

o que é a poesia
senão o silêncio que se diz


Hazul, Matosinhos, fevereiro de 2022

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