dia 198 - ludibriado

sempre eles
a seguirem-me desde que me viram no café a escrever há uns meses

querem recrutar-me disseram um dia quando eu saía

andam em grupos de três
sempre vestidos de fato preto com uma gravata a segurar uma camisa branca e gasta

querem que vá com eles à noite
que contam com as minhas palavras para um plano maior

que talvez um dia até o partilhem comigo
mas para isso terei de ir e escrever madrugada fora numa cave de um prédio abandonado

que são muitos e que não me preocupe com o que possa escrever
que isso não é importante desde que eu vá e escreva e que lhes deixe as palavras no fim

que no fundo eu nem tenho escolha
ou vou ou sou levado
e o tom carrega uma ameaça velada que se junta à minha curiosidade

lá vou
lá fui e lá tenho ido várias noites por semana
e escrevo
escrevo até o dia chegar

depois acompanham-me à porta e fecham-na comigo já do lado de fora
esgotado e mudo e com os olhos a pedir sono

não sei quanto tempo posso continuar com isto
mas eles asseguram-me de que sou capaz
que outros o fazem há décadas
que o propósito é maior que nós
maior que tudo

quando tento saber um pouco mais
regressa o tom intimidatório e um desdém agarrado

já não me olham como no início
pareço não caber no olhar e já só sou um pedaço de gente que eles escoltam escadas abaixo até à cadeira solitária onde me sento
deixam-me num quarto e esperam do lado de lá
ouço-os às vezes a bocejar e a fumar e a remexer nos bolsos

quando chega a hora um deles entra e recolhe as folhas
leva-as para uma outra divisão que nunca chego a ver
outros dois aparecem e mostram-me a saída sem se despedirem

se dias há em que não volto
eles ficam à porta de minha casa para me lembrar
e sem outra hipótese que não envolva violência lá vou de novo

o que escrevo nesse lugar decido esquecer na hora
apago tudo num canto de dentro da alma e nunca mais lá volto

nos regressos a casa ao início da manhã
pergunto-me se não foi um sonho
se este devaneio que dura e não acaba
não será um excesso sonâmbulo do meu corpo

imagino revoltar-me
levar comigo uma navalha ou um pau
talvez também um pouco de coragem e de loucura
mas acabo por aparecer cabisbaixo e meio vencido

um dia quem sabe
um dia talvez
um dia quiçá eu lhes grite na cara e lhes mostre os dentes
e fuja a correr como se não houvesse amanhã
e esbaforido no fim reencontre o que perdi quando os conheci
a minha liberdade ludibriada


Experience Trindade, Igreja da Santíssima Trindade, Porto, junho de 2026

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