dia 197 - o que não se diz

as palavras líquidas
onde cabem mais coisas para além daquilo que dizem
vão-se derramando aqui e ali até deixarem de dizer o que quer que seja

há um destino que as marca à nascença
um inevitável silêncio no fim das leituras

pelo caminho vão-se enchendo do que lá metemos dentro
nunca se limitam a ser o que primeiramente supostamente seriam

como a luz que nunca é somente luz
mas também o vestígio por onde passou
seja o resto de pequenas poeiras suspensas
ou a luminescência coada de um vitral
ou o reflexo cintilante de um olhar

há no âmago do que é dito um húmus que teima em surgir
que se esforça por ter voz também
um sopro ao lado do reverberar maior
como um excesso de seiva imparável que a qualquer custo irá singrar
e mesmo que dure um instante apenas ou que se dedique a decair pacientemente até ser de novo nada
acaba por inevitavelmente existir
e isso em si só é um milagre

no labirinto caótico que nos calhou
não há escape
o que há é tempo
e havendo tempo as palavras trepam pelo que dizem
enquanto cobrem de sombra o que não dizem
mas nas brechas rugosas dessas eras brotam ecos inesperados
e esses
vão deslizando até esvaírem em quietude


Bernwiller, Alsácia, França, janeiro de 2021

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