dizem alguns rumores
que existe um vento que morde
que faz com que marinheiros se lancem dos navios e se joguem às ondas
e que no meio delas ficam a olhar o céu até que cada estrela se eclipse e a noite se extinga de vez
nos portos e em terra
não faltam sonhadores
e gente cheia de uma coragem nunca testada
o vinho corre e os corpos viajam por outros corpos
trocam-se mentiras e segredos
cumprem-se promessas e quebram-se outras
mas as luzes do farol palpitam e vão segurando o mundo no lugar
é fácil falar de correntes e travessias quando os pés estão secos
é fácil pintar o horizonte e a espuma das vagas a espraiarem-se pelas areias silenciosas
é fácil escrever sobre tempestades e ondas que desabam de tão alto que parecem vindas do céu
mas o que é difícil na verdade
não tem como se contar
é de uma língua feita de sal e de solidão
é um vínculo pré-histórico dos inícios da vida com o mar
um atordoamento face ao infinito
um chamamento ao princípio
porque já se deu a volta e se passou o próprio fim
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