dia 113 - desfasamento

ele tinha contado os dias
um a um até se perder na dislexia leve mas ainda assim real que ele próprio diagnosticara

acontecia às vezes
num momento de pressa
fosse a ordem das palavras numa língua estrangeira a trocarem de lugar
fossem os dedos num elevador a falhar o alvo do número do andar

e nesses momentos
um arrepio subia-lhe pela coluna à velocidade dum breve embaraço

não era propriamente trapalhão
mas sabia que precisava de uma pausa fugaz de atenção para alinhar a alma com a realidade

se calhar vivia com um ténue desfasamento para com o mundo
e não só entre o corpo e os objetos
como também entre a intenção e o corpo

perguntava-se para onde iam as coisas e o tempo nesses entretantos
que universo oculto pulsava nos intervalos do descompasso
que magia e assombro aí habitam para que se demorem os intentos antes de regressarem ao concreto

se calhar
feitas as contas
a origem desse desalinho nascia precisamente nessas perguntas

nunca o saberia
fosse a desordem a causa
fosse o questionamento o efeito
ou vice-versa


Mural de Hazul, Rua Cimo de Vila, Porto, dezembro de 2022

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