dia 115 - uma última carta

pregou na árvore do fundo do jardim
a carta que ela lhe deixou

nunca cheguei a saber se ele a lera nem o que dizia
só sei que durante meses as folhas de papel iam resistindo como podiam
até que um dia o vento rasgou a última folha
ficando apenas um resto irrelevante esmagado pelo prego
escurecendo até ser árvore também

ela nunca mais apareceu
mas deixara para trás um mar de ausência e sombras
a casa
desde então
tornara-se maior
e ele perdia-se nos caminhos entre as divisões
do quarto para a sala da sala para o jardim

quando eu perguntava por ela
respondia

não sei
e se calhar nunca soube
talvez por isso cumpriu o desconhecimento e foi
escreveu e foi

dizia estas coisas sem grande emoção
com uma resignação cansada

o mistério também se foi esgotando
esfiando-se pelos silêncios dos dias tardes e noites
tornando-se um pó de solidão que o envolvia a ele já por completo

eu visitava-o quando podia
tentava ajudar
mas notei com o passar do tempo
que juntava a minha saudade à dele

um dia dei por mim a escrever-lhe uma carta
uma última carta


Merelbeke-Melle, Bélgica, novembro de 2018

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