dia 120 - consciência limpa

curiosamente
segundo ele
sentia que durante o sono
ia trocando os sonhos com outras pessoas
embora durante o dia todas elas parecessem distantes

talvez os vidros se esvaziassem enquanto dormia
como o último gole num copo de água
e assim a barreira se esfumasse revelando uma transparência perfeita

nem sempre se dava conta do tempo passar
mas sabia que as dúvidas eram só para aqueles que tinham certezas
para ele
sem destino nem missão nem mesmo um pedaço de ambição
bastava deixar-se ir embalado numa rotina que nem sequer sabia existir

quando o conheci
falou-me dos poemas que escrevia e depois rasgava
dizia que era a única forma de não desistir
e que fazia igual com a vida
que à noite ia dormir apenas para poder acordar

nunca o questionei sobre esses métodos
mas dei por mim a pensar se não seriam mentira
até porque nunca o tinha visto nem a escrever nem a dormir

a nossa relação resumia-se a uma ou duas conversas por mês
sempre no mesmo lugar e sempre com a mesma bebida

nos intervalos de nos vermos
talvez eu pensasse mais nele do que ele em mim
mas nos nossos encontros
era ele que mais entusiasmo revelava e mais novidades partilhava

eu preferia ouvi-lo
no fim de contas
dessa forma
acabava por sobrar sempre mais do vinho para o meu lado
e como era sempre eu que pagava
podia ficar de consciência limpa
não seria de bom tom uma traição entre ébrios


Travessa de Cedofeita, Porto, outubro de 2017

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