dia 104 - urbehumano

quando o ouviu dizer as coisas que disse
pareceram-lhe sopros a reverberar de uma carcaça
como se a voz viesse de um outro lado

à volta
o mundo ia seguindo
sorvendo o tempo
desinteressado em saber que as palavras vão sustendo a realidade

o que acontecia ia nascendo no olhar
como o sol ou a lua o fazem quando calha de se enquadrarem na janela
as vidas de cada um cruzavam-se num lugar camaleónico
ora entrada ora saída ora nascente ora poente

o que sobrava no final do dia
era uma promessa renovada de que amanhã seria outro dia
mas até lá chegar houve que atravessar uma existência inteira

do que ouviu
dessa fala
já não se recorda senão o som velho do que nem é já memória
mas o labirinto caótico dos espíritos que galgavam numa euforia contida
ainda hoje se tatua na lembrança

cada corpo com o caminho traçado numa certeza desconhecida
uma urgência em ir sem se saber de onde se veio
um imediatismo tão intenso
que fulminavam no presente como os relâmpagos nas noites de tempestade
uns após os outros até o temporal se cansar

hoje
à distância de um esquecimento
esse burburinho urbehumano ainda ecoa
nem que seja atabalhoadamente nuns versos quaisquer


ps - Mercado Municipal, São Paulo, Brasil, maio de 2018

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