dia 116 - um poeta numa tarde de calor

quando tomou a decisão de deixar de escrever
o dia queimava lá fora

as duas coisas não estavam ligadas
mas não deixou de suar quando saiu para a estrada já com decisão tomada

não escrevo mais
disse

ficou a projetar a sombra inevitável do corpo ao sol
um contorno difuso a diluir-se pelo chão numa mancha pouco humana

caminhou até se arrepender da resolução
provavelmente seria uma promessa mais para quebrar

acalentava o conforto de acreditar desde sempre
que não só os que quebram promessas enlouquecem
como também os que as cumprem se afogam em delírios às vezes
por isso
de uma forma ou doutra o destino seria o mesmo

o mundo não chega
dizia sozinho

há demasiado espaço nos pequenos milagres que vejo
para que não lhe atire palavras e as encadeie até que façam sentido
ou que soem bonito ou que simplesmente me deixem de vez 

o muro onde se encostara ardia com a canícula da tarde
um espelho ignorava-o
não entendia como não lhe devolvia a silhueta
talvez estivesse a fazer mal as contas ao ângulo
se calhar o calor pregava-lhe partidas
ou então
aí estava a loucura numa primeira ronda de reconhecimento
a farejar o terreno e a salivar por dentro

mais cedo ou mais tarde
todos somos devorados por um devaneio ou por um uivo
disse enquanto sacava do caderno e da caneta


Rua dos Antigos Muros de Baixo, Portalegre, agosto de 2020

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