dia 99 - simultaneidade

ao ver
trouxe do que viu algo que não existia neste mundo
como se o ato de olhar por si só forjasse o inalcançável

os ventos que sopram pela solidão
correm até não haver mais por onde resvalarem
e deste lado
os ecos do que dizem são sempre inéditos
pois cada um é único e inimitável

o que é comum é o assombro
o instante em que se nos falham os sentidos e a alma parece elevar-se do corpo

ao ver
aumentou o próprio tecido da existência
qual deus a encontrar um lampejo de criação
e num instante inicial tudo e nada são possíveis
até que aos poucos se vão aniquilando um ao outro
como partículas de carga oposta

no fim dessa dança probabilística
costuma sobrar um pedaço do tudo
só que por vezes
quando o acaso se lembra
muito raramente
o que fica acaba por ser um pedaço do nada
e aí
nesse milagre
o que é real e irreal manifestam-se em simultâneo


ps - "Jovem Mulher na Paisagem (Estudo para ‘Remendadoras de Redes), obra de Max Liebermann, Leopold Museum, Viena, Áustria, abril de 2022

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